sexta-feira, 15 de junho de 2018

Puente La Reina a Estella [Previa]

Igreja de Villatuerta - Navarra

[...] Na entrada do pequeno povoado de Lorca, resolvi sentar um pouco na grama, à beira do Caminho, para beber água e comer uns melocotóns que ainda restavam na mochila. Quando olhei para a estrada, lá atrás, avistei a portuguesa Jeni, que vinha mancando e se arrastando, com a mesma dificuldade de sempre. Esperei ela se aproximar um pouco mais, e perguntei:
- E então, Jeni! Está melhor hoje? E ela, quase chorando:
- Não! Não estou bem! Eu queria conseguir andar pelo menos uma semana, só que eu não aguento mais!
Eu pensei comigo: “Ai, meu Deus! Até hoje ela ainda está repetindo isso”!

Sentou-se um pouco ali e ficamos conversando. Ela me disse que iria, no máximo, mais um dia ou dois e depois pegaria um ônibus pra Portugal. Enquanto eu procurava pilhas pra comprar pelas ruas internas do povoado, ela ficava sentada no meio fio esperando ou seguia adiante devagarinho. Mas logo eu a alcançava e ela recomeçava a reclamar. Dizia que tem gente demais nos albergues e que essa não é uma época boa para fazer essa Caminhada. Em seguida reclamava do sol e do calor durante o dia, depois do frio e da escuridão da madrugada. E, entre uma reclamação e outra, ela sempre repetia, quase chorando:
- Eu queria conseguir andar pelo menos uma semana, só que eu não aguento mais!

Às dez e quinze da manhã o sol já está começando a esquentar e os pés já estão doendo bastante. Considerando a escala de zero a cem, que eu inventei pra medir o tamanho da dor, eu já devo estar passando de cinquenta. Por um momento pensei que havia avistado casas ou alguma estrutura urbana, mas era engano. Não passava de barrancos. Tenho que continuar andando.
[...]
Já há algum tempo venho seguindo pela trilha que margeia a rodovia entre Pamplona e Logroño, as principais cidades do País Basco e da Navarra, respectivamente. É uma bela autopista dupla, com asfalto de ótima qualidade, muito bem sinalizada e tráfego muito intenso nesse horário. Em alguns pontos a trilha se distancia da rodovia, outras vezes segue bem ao lado do acostamento e, num certo ponto, atravessa para o outro lado da estrada, por um túnel que passa por baixo da pista.
[...]
O caminho de Santiago é um universo com características próprias e com sua própria ética, muito peculiar. Mesmo tendo vindo em grupo, as pessoas parecem que nunca têm compromisso de ficarem juntas o tempo todo, nem de caminharem juntos, nem de pernoitarem juntos no mesmo albergue. Um exemplo disso é o grupo de italianos, com os quais venho me encontrando sempre, desde o primeiro dia. Às vezes passo por alguns deles e depois, bem adiante, passo por outros – ou seja, estão espalhados por aí,  cada um no seu próprio ritmo, sem compromisso entre si.

Também por isso foi que, na maior naturalidade, o paulista Eduardo deixou o seu primo para trás, para que ele se recuperasse e tentasse alcança-lo depois. Enfim, cada um faz o seu caminho e, assim, dia após dia, a gente segue, encontrando pessoas que talvez nunca mais vai ver ou pode ser que reencontre logo ali, depois da próxima curva.


O interessante é que, cada vez que se reencontra alguém com quem se caminhou um pouco ou que tenha trocado algumas palavras numa sombra ou num albergue, a sensação é de reencontrar um amigo de longa data. O Caminho não só nos faz todos iguais, mas também nos faz amigos e, segundo a tradição, no final nos torna irmãos de fé.

Eram mais de onze horas da manhã, quando eu cheguei na Igreja de Nossa Senhora de la Assunción, num lugarejo chamado Villatuerta, onde conheci o Rufino, um senhor simpático e sorridente, aparentando ter algo em torno de noventa anos, tão gentil que, no primeiro momento, achei que fosse um velho pároco da Igreja, mas soube depois que ele era apenas o zelador, há várias décadas.

O povoado é pequeno, com poucas casas de pedra centenárias, outras mais simples espalhadas aqui e acolá, mas a igreja, em estilo gótico, é suntuosa. Mais tarde soube que a sua estrutura original era obra do império romano.

Eu tinha feito apenas uma pequena parada na frente da igreja pra conferir por onde seria a trilha de saída do povoado e, talvez, bater uma foto. Mas, nisso foi chegando um grupo de uns oito ou dez espanhóis e o velhinho apareceu na porta, convidando-os a entrar e, prontamente, foi pegando os passaportes peregrinos de cada um e carimbando. Eu me aproximei, pedi para tirar fotos da parte interna da igreja e ele disse que tirasse quantas quisesse, sem problemas. Em seguida, depois de pedir a ele que carimbasse também o meu passaporte, fiz menção de sair, seguindo os outros peregrinos, quando ele me chamou de volta:
- Brasileiro, você poderia esperar, por favor!

Com aquele jeito humilde, com uma corcunda bem saliente, talvez pelos tantos anos de trabalho ali, ele falou tão baixo que eu não entendi muito bem, mas fui alertado por um peregrino espanhol:
- Ele pediu pra você esperar!

Enquanto os outros saíam da igreja, ele agarrou a alça da minha mochila, como se quisesse me segurar e, assim que saíram, me disse:
- Os brasileiros aqui nessa Igreja são tratados com um carinho especial. Venha ver.

E, abrindo um velho armário com vários livros enormes, de capa dura marrom, de onde tirou um bem surrado e com a capa encardida e outro novinho em folha, me disse:
- O último livro de visitas, de 400 páginas, foi aberto com a assinatura e a mensagem de um brasileiro e recentemente foi fechado também por um brasileiro. Agora eu vou abrir o próximo livro e quero que esse também seja dedicado aos brasileiros. Então, por favor, deixe sua mensagem na abertura do livro.

Ele havia omitido o livro dos outros peregrinos que entraram antes de mim e, sabe-se lá quantas outras pessoas mais antes disso, apenas para que a primeira assinatura fosse de um brasileiro. Essa deferência dele me deixou até emocionado. Abri o livro e escrevi:

“Não sei o que vim procurar no Caminho de Santiago de Compostela, mas tenho certeza de que vou encontrar! E seja lá o que for, levarei de volta comigo para honrar e dignificar todas pessoas que eu estimo, com as quais eu convivo e que pretendo conviver pelo resto da minha vida, para que isso seja transmitido adiante, pelas próximas gerações.
Em nome de todos os peregrinos brasileiros, agradeço a acolhida simpática do senhor Rufino.”

Logo abaixo, em outro pequeno parágrafo, registrei também no livro:
“Parabéns à minha filha Cintia que hoje, lá no Brasil, está comemorando seus dezoito anos! Que ela seja muito feliz sempre! Parabéns, minha filha! Te amo!”
E assinei: Villatuerta, Navarra, Espanha, 07/08/2001.

Li a mensagem completa para o senhor Rufino, que achou ótimo. Riu muito e comemorou, desejando felicidades à minha filha e agradecendo por ter deixado uma mensagem tão completa. Depois, pediu para deixar uma mensagem de voz gravada no meu gravador de bolso:
- “Adios brasileños, vos soys una nación grande e racista! Si, si, gracias, señor!”. Dito isto, com jeito encabulado, soltou uma ruidosa gargalhada!

Curioso, lhe perguntei por que “racista” e ele, sorridente, explicou que era por ser um país onde convivem muitas raças em harmonia.

A saída de Villatuerta é pelo alto de um morro de pedras, de cujo alto se vê a Igreja do Sr. Rufino. Parei bem no topo para apreciar a vista e fazer uma foto da igreja vista de cima. As ruas do povoado estavam desertas e mais ninguém passava pela Igreja. De repente os sinos da igreja começaram a badalar freneticamente! Seria o Sr, Rufino me fazendo uma saudação? Acenei, como se ele estivesse me vendo de dentro das torres e segui o meu caminho.
* Marcio Almeida é Engenheiro Mecânico e Engenheiro Industrial, Administrador de Empresas, MBA em Gestão Governamental e Ciência Política, Especialista em Informática, ex Diretor de Auditoria do Governo Federal, Ex Presidente de Processos Administrativos da Agência Nacional de Aviação Civil, Coordenador Geral de Modernização e Tecnologia nos Ministérios da Justiça e do Trabalho e Emprego, pesquisador autodidata em Nutrologia e Nutrição Esportiva, História e Sociologia, Meio-Maratonista, MM

sábado, 9 de junho de 2018

Laura



O nome Laura está associado a vitória, triunfo e glória.
Sua origem mitológica vem de Laurus (do Latim) ou Dafne (do Grego), a Ninfa que personificava o espírito puro da feminilidade. Era Filha de Alfeu, o deus do rio, com Gea, a mãe-Terra.
Segundo a lenda, depois de ser atingido pela flecha do Cupido, o deus Apolo apaixonou-se perdidamente por Dafne (Laurus) e passou a importuná-la com galanteios insistentes.

Como forma de proteger a filha, Gea transformou-a numa linda árvore, que foi plantada ao lado de uma fonte que jorrava a mais pura água cristalina, proveniente do seio da Terra
Apolo, inconformado, passava os dias ali, tocando sua lira, com outras divindades que cantavam e declamavam poesias, na esperança de quebrar o encanto de Laurus. Sem sucesso, não restou a Apolo outra alternativa, senão contentar-se em usar uma coroa feita de suas folhas.
Foi justamente nesse lugar, ao pé do Monte Parnazo, que foi construído o Oráculo de Delphos, o mais sagrado santuário da mitologia grega e onde, até hoje, jorram fontes de água pura cristalina, irrigando belas e perfumadas árvores de Laurus, uma planta pertencente à família dos Loureiros, também conhecida como Louro, considerada sagrada e venerada na Grécia há mais 600 anos antes de Cristo.

Por isso, por tradição na Grécia, todos os artistas, sábios, cantores, poetas e atletas que se destacavam ou conquistavam uma vitória, eram coroados com um adorno confeccionada com folhas de Louro, simbolizando o triunfo da pureza da Ninfa.
Em Roma antiga, essa planta era também considerada sagrada. Por essa razão os imperadores usavam uma coroa feita com folhas de Louro, simbolizando a sua autoridade suprema, bem como a soberania, a glória e o triunfo do império sobre os que o desafiaram.
O nome foi incorporado ao Hebraico clássico, personificando a figura de um anjo guia, originalmente referenciado como Ma-Lach, que significa “meu anjo”, na transliteração de “Minha Laurus” ou “Minha Laura”.
Seguindo essa tradição, algumas culturas Judaico-Cristãs orientais fazem referência a um anjo de nome Laura que, com seu brilho, feito uma estrela, teria guiado os Reis Magos até onde Jesus Cristo nasceu e ali permanecera iluminando a manjedoura.
Atualmente Laura está incorporado como nome próprio feminino em praticamente todas as culturas e todos os idiomas ao redor do mundo, desde o Grego, Árabe, Alemão, Inglês e, sobretudo, nas línguas de origem latina.
Por conter esse significado lírico e enigmático, associado a fábulas e histórias mitológicas tão lindas e por ter uma sonoridade tão suave em qualquer idioma, escolhemos LAURA para ser o nome da nossa filha.

* Marcio Almeida é Engenheiro Mecânico e Engenheiro Industrial, Administrador de Empresas, MBA em Gestão Governamental e Ciência Política, Especialista em Informática, ex Diretor de Auditoria do Governo Federal, Ex Presidente de Processos Administrativos da Agência Nacional de Aviação Civil, Coordenador Geral de Modernização e Tecnologia nos Ministérios da Justiça e do Trabalho e Emprego, pesquisador autodidata em Nutrologia e Nutrição Esportiva, História e Sociologia, Meio-Maratonista, MM

sexta-feira, 1 de junho de 2018

De Roncesavalles a Pamplona - Previa

[...]

A partir de um certo ponto, o caminho some. Estou descendo agora por um despenhadeiro no meio de uma capoeira fechada. Praticamente não existe uma trilha, só uma espécie de picada no mato. Pelo menos, há setas indicativas pelo chão, mostrando que aqui, de fato, é um trecho do Caminho de Santiago, embora meio estranho! Há lugares em que é necessário passar agachado debaixo de troncos, segurando em raízes para não escorregar e cair morro abaixo ou passar por cima de moitas e macegas de arbustos. A uns duzentos metros à minha frente, avistei um casal de Peregrinos que vai descendo na mesma trilha. E já que eles seguem seguros de si, creio que sabem para onde estão indo e, então, vou segui-los. Volta e meia eles somem nas curvas do mato, mas depois avisto eles novamente. Vou acelerar um pouco e tentar alcança-los. E espero também que lá embaixo, no final, haja algum córrego ou, pelo menos, um rego d`água, pois eu estou com o cantil seco e com sede.
Depois de descer um tempão nessa picada íngreme no meio do mato, a trilha chega a uma estrada de asfalto. Mas, água que é bom, nada! E o meu alívio durou pouco, pois a cerca de uns cem metros à frente, o Caminho sai pela capoeira outra vez, agora subindo pelo outro lado da estrada. E, logo em seguida, pega-se uma estrada construída com um calçamento de pedra, algo muito antigo. Apesar de irregular, é muito bem acabado. É provavelmente uma estrada romana milenar.
Em alguns pontos a estrada praticamente se confunde com a vegetação de arbustos e espinheiros das margens, algumas vezes, obrigando-me a ter que passar pelo mato pra fugir dos espinhos, outras vezes sobre restos de troncos e galhadas caídos.
Após andar com dificuldade por uns quinhentos metros, no máximo, por essa estrada de pedras, comecei a sentir um certo desespero, sobretudo por causa da sede que estava ficando insuportável e eu nem imaginava onde poderia achar água pois, como eu estava subindo, o mais provável é que fosse encontrar algum planalto seco cascalhento no final da trilha. Logo, eu já não pensava em mais nada! Não queria andar, muito menos subir morro! Só queria encontrar água pra beber.
Um pouco mais adiante, quando a mata começava a ficar menos densa, já ganhando o alto de uma colina, ouvi vozes vindo atrás de mim. Não demorou muito pra me alcançarem. Eram aqueles dois espanhóis, de Madri, os mesmos que aprontavam a tralha hoje de manhã em Roncesvalles, quando voltei pra buscar o cajado esquecido na lanchonete. Vinham falando e cantando alto, os dois ao mesmo tempo, numa tagarelice eufórica que mais pareciam estarem indo para alguma festa. Os cumprimentei tentando disfarçar o mau humor e comentei que havia ficado sem água há algum tempo. Prontamente um deles sacou da mochila uma garrafa PET de um litro e meio, ainda pela metade, e me ofereceu.
No ritmo que chegaram, eles seguiram em frente, fazendo a mesma algazarra, depois de mandarem abraços pra todas as moças bonitas do Brasil.
Alguns quilômetros depois eu os alcancei, sentados na sombra de uma árvore contando casos e dando risadas, ainda na mesma animação! Eu já estava novamente com sede, mas por questão de ética, sei lá, fiz apenas alguns comentários e gracejos com eles e segui em frente, sem dar oportunidade sequer pra que me oferecessem mais de sua pouca água.
Já era mais de onze horas da manhã, o sol se tornaria mais intenso a partir desse horário e se por acaso não encontrasse um boteco, um riacho ou um chafariz na beira da estada nas próximas horas, eu estaria frito. Então, lembrei-me de uma última maçã num bolso da mochila, que eu trazia desde Saint-Jean e comecei a comer. Pelo menos havia alguma água na fruta.
Até que enfim resolvi meu problema! Passei por um riacho com a água muito limpa, onde bebi bastante e enchi o cantil. Logo adiante, entrei num pequeno povoado com algumas poucas dezenas de casas. E, assim como os outros, na praça central tem uma bela igreja e, dessa vez, vou entrar pra fazer uma oração rápida e tirar umas fotos antes de seguir. Não pude deixar de reparar que, como todo lugarejo, em qualquer lugar do mundo, aqui também tem pardal! Muitos pardais e barulhentos...


De repente, o canto barulhento dos pardais foi abafado pelos sinos da igreja. Por aqui sempre se ouve sinos de igrejas por todo lado, mas é a primeira vez que começam a tocar justamente quando eu estou caminhando pra lá. Parece que estão me chamando. Notei que no alto das torres haviam quatro sinos muito grandes, que começaram a bater cada vez mais agitados, na medida que eu me aproximava. Um festival de badaladas! E, interessante, que praticamente não tem gente nas ruas, à exceção de um casal de velhinhos e um senhor de bicicleta que acabou de passar.
Ao chegar na porta da Igreja, descobri porque as ruas estavam vazias: é que todo mundo estava lá dentro. Deduzi, então, que era hora da missa e que os sinos, na verdade, não tocavam pra mim – que decepção – mas sim para avisar que a missa estava pra começar. Daí, me lembrei que era domingo! Então está explicado essa missa nesse horário e o povo todo na igreja.
Comecei a entrar, meio encabulado, tentando passar despercebido até chegar à primeira fileira de bancos, próximo à porta, por uma razão estratégica: pra que quando eu quisesse dar o fora, a qualquer hora, ninguém notasse. Me aproximei do banco, pé ante pé, pra ninguém me ver mas, quando fui descer a mochila pra me ajoelhar, o meu cajado deu uma baita pancada naquele banco de madeira enorme e o barulhão ecoou pela Igreja inteira. Eu quis acudir, mas ele bateu de novo, mais forte ainda e, dessa vez, não teve jeito! As pessoas que estava mais perto me olharam, e eu fiz um gesto de desculpas.
Quando eu pensei que estava ajeitando a tralha, bem disfarçadamente, pra conquistar a minha tão desejada invisibilidade, o Padre, que a essa altura, já estava falando lá no altar, começa a chamar:
- Peregrino! Senhor Peregrino!
Antes de olhar, eu pensei: “Meu Deus, deve ser comigo e eu vou levar bronca”. Naquele momento eu não sei o que era maior: a raiva do danado do cajado ou o arrependimento de ter entrado naquela Igreja. E, de fato, ele olhava pra mim e, fazendo sinal para me aproximar, dizia:
- Venha para a primeira fila, Peregrino!
Eu fiz um gesto agradecendo, e disse que ali mesmo estava bom pra mim. Mas ele insistiu e, pelo menos, um alívio, disse que era uma honra ter a presença de um Peregrino, que passava por ali, a Caminho de Santiago de Compostela.
Não teve  escapatória! Juntei a tralha, meio desajeitado, e saí arrastando o cajado barulhento, catando boné que caía no chão e tentando enganchar a alça da mochila no ombro. E, na medida que eu caminhava pelo corredor central da igreja, todos me olhavam, inclusive o Padre, que parou de falar e ficou me esperando fazer a minha mudança de lugar desastrosa, e eu sem ter onde enfiar a cara, de tanta vergonha. 

Quando eu me aproximava da fileira de bancos da frente, as pessoas se ajeitaram pra liberar espaço pra eu sentar, inclusive alguns idosos, o que me deixou ainda mais constrangido. Sentei bem na pontinha, agradecendo acanhado, quando o Padre recomeçou a falar, se dirigindo a mim:  
- Há seculos que este povoado, por tradição, acolhe e cuida dos Peregrinos que passam por aqui. Por isso, nos sentimos honrados tendo você nessa celebração. Seja muito bem vindo, Peregrino!
Nesse instante o nome "Peregrino" me soou com um sentido e uma força diferentes, que até então eu não imaginara. Uma emoção tomou conta de mim e notei que meus olhos ardidos haviam sido inundados de lágrimas. Foi como se eu acabasse de ser reconhecido por uma designação de honra ou um título da mais alta nobreza, ou como se eu acabasse ser aceito, ao final do mais honroso ritual de iniciação ritualística. Elevei meus olhos para o altar e rendi graças a Deus. 

Ao final da missa, fiz questão de ira à Sacristia agradecer pelas honras e aproveitei pra fazer um pedido especial. Tirei da mochila algumas pombinhas símbolo do Divino Espírito Santo que eu havia mandado fazer em ouro maciço e pedi ao Padre que as abençoasse, pois seriam relíquias sagradas para mim e para minhas filhas, depois que voltasse com elas do Caminho. Ao invés de pegar as jóias, ele me pegou pelos punhos com as duas mãos, me olhou nos olhos e disse:

- Você vai carregar essas pequenas jóias até o altar do Apóstolo Tiago, em Santiago de Compostela, enfrentando todos as penitências que o Caminho lhe impõe e, ainda, quer que eu as abençoe? Pois saiba que nenhuma bênção minha será mais sagrada do que os sacrifícios pelos quais você vai passar, carregando essas suas relíquias! 
E, com jeito meio moleque, levantou-se, bateu nas minhas costas e disse: 
- Bom caminho, Peregrino! Que Deus lhe acompanhe e lhe proteja até a Galícia! Reze por mim no Caminho e quando lá chegar, peça graças ao Apóstolo por mim
Sai daquele povoado com a alma leve e, logo adiante, me embrenhei outra vez, mata adentro. Pelo menos aqui a trilha é uma estradinha limpa, livre de arbustos e, principalmente, de espinheiros. Dá pra perceber que a estrada principal asfaltada segue ao lado, a alguns metros. Dá para ver carros e caminhões passando.
A região da Cordilheira dos Pirineus, que faz fronteira entre a França e a Espanha, fica bem no centro de um território ocupado por uma etnia muito antiga e tradicional, aliás, bem conhecida da mídia atual por causa dos movimentos separatistas que eles costumam promover, chamado Povo Basco. Inclusive, essa região, que tem parte na França e parte na Espanha, é conhecida como “País Basco”. Os povos dessa etnia, até hoje têm muito orgulho de sua cultura, de sua origem e de sua história, enfim. Tanto que eles se apresentam, não como espanhóis, mas como bascos. Têm idioma próprio, apesar de que todos falam também o espanhol. Ontem mesmo eu conheci uma família – a mãe a tia e um casal de adolescentes que, apesar de terem nascido e viverem na França, disseram pra mim que eram bascos. Assim, a despeito da fronteira entre França e Espanha que, já há vários séculos divide o território deles, sempre preservaram a mesma cultura. Por um período na história, me parece que o chamado País Basco compunha um mesmo reino com a atual Navarra. Esse detalhe eu tenho que pesquisar.
São 12:15hs e eu continuo andando pela trilha no meio da mata, porém numa região cuja vegetação lembra mais o cerrado brasileiro - árvores baixas, com macegas de arbustos e espinheiros embaixo. A trilha bastante estreita, às vezes chegando a meio metro de largura e, volta e meia, galhos de árvores atravessados, atrapalhando a passagem. Com isso, às vezes tem-se que agachar para passar e isso com a mochila nas costas não é nada confortável.,
Estranhamente eu não encontro quase ninguém no Caminho! Considerando a quantidade de gente que havia naquele albergue hoje de manhã, eu acho que todo mundo tomou a frente e eu fiquei para trás. Isso deve ser por causa do horário que levantei e, ainda, porque parei para assistir à missa.
Logo adiante tem uma subida forte e longa! E, como sempre, com a trilha coberta de pedras – uma espécie de cascalho muito grosso, com pedras de até dez centímetro. Nem sei se isso pode ser considerado cascalho. De longe eu avistei um grupo de ciclistas empurrando as bicicletas na subida. No meio do trecho eles pararam, largaram as bicicletas no chão e sentaram no barranco. Os alcancei ainda ali e parei um pouco para restabelecer a respiração da subida rápida e conversar. Eram espanhóis de Andaluzia. Pedi pra tirarem uma foto minha e segui em frente.
São duas horas da tarde e desde de que sai do último povoado, onde assisti à missa, já andei cerca de quinze ou vinte quilômetros de trilha praticamente dentro da mata – ora mais parecida com cerrado, ora mata fechada. Apenas cruzei, por duas vezes, a estrada asfaltada que, agora, parece estar muito longe. Não ouça mais ruído de carros, nada! Silêncio total, a não ser passarinho e grilo cantando no mato.
Além dos ciclistas, passei apenas por mais um grupo de Peregrinos espanhóis que, inclusive, caminhava dividido em dois subgrupos, mas eram da mesma família! Não vi mais uma vivalma por aqui. Comentaram que há um albergue adiante e, pelo que disseram, deve estar a mais ou menos uma meia hora de caminhada daqui. Mas, como ainda é cedo, não creio que ficarei pra pernoitar. Devo andar mais.
Acabo de avistar um povoado bem embaixo, no final de uma colina longa. Deve ser onde tem o tal albergue. Até lá será muita descida forte, numa trilhazinha complicada, que mais parece aquelas trilhas de gado cavadas na terra seca, cheia de barrancos e pedra soltas e tão estreita que às vezes não dá pra mudar o passo sem quicar um pé no outro! Pra piorar, as pedras aqui são roliças e lisas. Se pisar em cima com o peso do corpo, com certeza, o tornozelo vai pro beleléu! Mas vou enfrentando devagarzinho, segurando nos ramos e nos barrancos pra não escorregar. Às vezes é melhor sair e andar pelos pastos. Isso quando é possível, porque está repleto de espinheiros arranhando e desfiando a calça da gente! Ôh, trem difícil!
Chegando na baixada, já próximo do povoado, a pastagem é mais limpa e, ao invés das pedras roliças da descida, aqui eles colocaram brita na trilha – muita brita e toda irregular! Tem pedra de todo tamanho. Não sei pra quê isso! Deve ser pra impor mais dificuldades aos Peregrinos. Só pode ser pra piorar a vida da gente!
Já ouvi dizer que tem Peregrinos que fazem essa caminhada de chinelo! Queria ver um desses passar por aqui! É impossível! Definitivamente impossível. De chinelo, nem aqui nessas britas nem na serra lá em cima, nem nas trilhas do meio da mata lá de trás, não teria a menor condição! Peregrino de chinelo aqui, desiste!
Acabei de descer a parte pior, mas comecei a sentir algumas dores na articulação superior do fêmur direito. Deve ser de tanto levar tranco nesses barrancos na descida do morro. Estou entrando no povoado e vejo que é bem maior do que eu imaginei. Maior, em termos – ao invés de ser oito ou dez casas, deve ter doze. Não passa de uma currutela! Mas todas as casas são construções muito antigas, estilo europeu com telhado alto e muito inclinado. São casas bonitas!
E parece que nesse povoado está acontecendo uma festa! Tem um som alto, tocando uma musiquinha típica de folclore espanhol. Às vezes um locutor fala alguma coisa... Mas deixa esse povo aqui fazer a farra deles. Não sei se paro por aqui, ainda mais com barulho de festa. Tenho muito chão pela frente.
Logo na entrada, vi a placa com o nome do povoado – Zubiri, além da seta indicando o Caminho de Santiago e outras inscrições ilegíveis pra mim! Sei lá que língua é isso! Não dá pra ler. Esse povo é Basco ou Navarro e a escrita deles é diferente. Um pouco mais adiante outra placa indica o albergue. 

Quando eu vinha descendo ali atrás, ainda nas trilhas do meio do pasto, reparei uns caras gritando e acenando pra mim e imaginei que fosse apenas alguém entusiasmado pelo vinho, na festa, fazendo alguma presepada. Mas quando me aproximei mais,  reconheci quatro dos italianos com os quais andei ontem, saindo de Saint-Jean. Um deles acenava e gritava “Brasiliano! Brasiliano!”. O outro gritava “Cruzeiro, de Belo Horizonte!” - Eu estava usando uma camisa do Cruzeiro. 
A praça central, uma pracinha bem pequena, era rodeada por alguns casarões clássico bastante antigos, todas as janelas e varandas enfeitadas com muitas flores. No meio, o equipamento de som tocava, nesse momento, alguma coisa mais animada, tipo música norte americano.
Os italianos vieram me receber na entrada, e já foram me mostrando o resto da turma! Eram mais de vinte, trinta, sei lá! A julgar pelo falatório, dava pra pensar que fossem uns oitenta. Era o maior barulhão. Estacionados na praça umas duas ou três vans, que faziam a logística de apoio deles. Me ofereceram vinho e um tipo de biscoito, eu aceitei um tico, só por educação, me despedi e segui em frente.
Eu até poderia ficar por aqui, tomar um copo de vinho com os italianos e comer alguma coisa, mas eu não estou com muita disposição. Sei lá! O humor meio comprometido por causa desse calorão e dessas trilhas buraquentas. Vou seguir.

Já saindo de Zuburi, entrei numa mercearia que parecia ter bastante coisa interessante e comprei umas frutas, uns chocolates, um sanduíche de pão com queijo e presunto, que eles chamam por aqui de Bocadilho, e mais uma embalagem de um litro de iogurte de morango, que eu resolvi tomar toda, na hora. Não por ganância nem só pela fome, mas porque era conveniente desocupar as mãos, já que não dava para colocar a embalagem na mochila, sem risco de derramar.
Assim que saí do povoado, alcancei parte do grupo de espanhóis que eu havia deixado pra trás, há algumas horas. Estavam sentados à beira de um rio, na sombra de uma árvore, fazendo um lanche. Por desânimo de descer o pequeno barranco, me sentei ali mesmo, na beira da estrada, pra conversar um pouco, enquanto acabava de tomar o meu litro de iogurte. De repente aparece, lá na saída da rua, o rapaz da mercearia correndo, balançando um cajado no ar e gritando: “Hei, Brasil! Hei, Brasil!”. Só então percebi que era o meu cajado, que eu havia esquecido, pela segunda vez, só nesse dia. Fui ao encontro dele e peguei o cajado, agradecendo. Felizmente eu sou o único brasileiro por aqui. Ainda não cruzei com nenhum e nem ouvi falar de brasileiros por esses trechos que passei. Se há algum, deve estar bem atrás ou bem à frente. Ali mesmo tive uma ideia: desamarrei uma espécie de cordoalha que estava ociosa na mochila, de cerca de um metro e meio, e amarrei na alça do cajado. Assim, nem que fosse arrastado, ele iria comigo aonde eu fosse.

[Continua...]



CAP. 4: Puente La Reina a Estella.

[...]


[...] Na entrada do pequeno povoado de Lorca, resolvi sentar um pouco na grama, à beira do Caminho, para beber água e comer uns melocotóns que ainda restavam na mochila. Quando olhei para a estrada, lá adiante, avistei a portuguesa Jeni, que vinha mancando e se arrastando, com a mesma dificuldade de sempre. Quando ela se aproximou um pouco mais, eu perguntei:
- E então, Jeni! Está melhor hoje? E ela, quase chorando:
- Não! Não estou bem! Eu queria conseguir andar pelo menos uma semana, só que eu não aguento mais!

Eu pensei comigo: “Ai, meu Deus! Até hoje ela ainda está repetindo isso”!
Sentou-se um pouco ali e ficamos conversando. Ela me disse que iria no máximo mais um dia ou dois e depois iria pegar um ônibus e ir embora. Enquanto eu procurava pilhas pra comprar, nas ruas internas do povoado, ela ficava sentada no meio fio esperando ou andava devagarinho, mas logo eu a alcançava e ela começava a reclamar. Dizia que tem gente demais nos albergues e que essa não é uma época boa para fazer essa Caminhada. Em seguida reclamava do sol e do calor, para depois reclamar da escuridão e do frio da madrugada. E, entre a reclamação de uma coisa e de outra, ela sempre repetia:

- Eu queria conseguir andar pelo menos uma semana, só que eu não aguento mais!
Às dez e quinze da manhã, o sol já está começando a esquentar. Com isso, os pés já estão começando a doer. Considerando a escala de zero a cem, que eu me referia, eu já devo estar passando de cinquenta. Por um momento pensei que havia avistado casas ou alguma estrutura urbana, mas era engano. Não passava de barrancos. Tenho que continuar andando.

Já há algum tempo venho seguindo a trilha que margeia a rodovia que liga duas cidades importantes dessa região da Espanha: Pamplona e Logroño. É uma bela rodovia de pista dupla, com asfalto de ótima qualidade e muito bem sinalizada, com tráfego muito intenso a esse horário. Em alguns pontos nos afastamos da rodovia, outras vezes segue-se bem ao lado e, num certo ponto, atravessa-se para o outro lado da estrada por meio de um túnel.
[...]
O caminho de Santiago é um universo com características próprias e com sua própria ética, muito peculiar. Mesmo tendo vindo em grupo, as pessoas parecem que nunca têm compromisso de ficarem juntas o tempo todo, nem de caminharem juntos, nem de pernoitar sempre juntos, no mesmo albergue. Um exemplo disso é o grupo de italianos, com os quais venho me encontrando sempre, desde o primeiro dia. Às vezes passo por alguns deles e depois, bem adiante, passo por outros – ou seja, estão espalhados por aí, cada um fazendo o seu próprio Caminho, sem compromisso entre si.

Também por isso foi que, na maior naturalidade, o paulista Eduardo deixou o seu primo para trás, para que ele se recuperasse como fosse possível e tentasse alcança-lo depois. Enfim, cada um faz o seu caminho e a gente encontra pessoas que talvez nunca mais veja ou pode ser que reencontre logo ali, depois da próxima curva.

O interessante é que, cada vez que se reencontra alguém com quem se caminhou um pouco ou que tenha trocado algumas palavras numa sombra ou num albergue, a sensação é de reencontrar um amigo de longa data. O Caminho não só nos faz todos iguais, mas também nos faz amigos e, ao final, , diz a tradição que nos tornamos irmãos de fé.

Eram quase onze horas da manhã, quando eu cheguei no povoado de Villa Tuerta, na Igreja de Nossa Senhora de la Assuncion, onde conheci o Rufino, um senhor simpático e sorridente, aparentando ter algo em torno de noventa anos, tão gentil que, no primeiro momento, achei que fosse um velho pároco da Igreja, mas soube depois que ele é apenas o zelador, há várias décadas.

Eu tinha apenas feito uma paradinha na frente da igreja pra conferir por onde seria a rua de saída do povoado e, talvez, bater uma foto externa. Mas, nisso foi chegando um grupo de uns oito ou dez espanhóis e o velhinho fez sinal para que todos entrassem e, prontamente, foi pegando os passaportes peregrinos de cada um e carimbando. Eu me aproximei, pedi para tirar fotos da parte interna da igreja e ele disse que tirasse quantas quisesse, sem problemas. Em seguida, depois de pedir a ele que carimbasse também o meu passaporte, fiz menção de sair, seguindo os outros peregrinos, quando ele me chamou de volta:

- Brasileiro, você poderia esperar, por favor!

Com aquele jeito humilde, com uma corcunda evidente, supostamente pelos tantos anos de trabalho ali, ele falou tão baixo que eu não entendi muito bem, mas fui alertado por outro peregrino espanhol:
- Ele pediu pra você esperar!

Enquanto os outros peregrinos saíam da igreja, ele agarrou a alça da minha mochila, como se quisesse me segurar e, assim que saíram, me disse:
- Os brasileiros aqui nessa Igreja são tratados com um carinho especial. Venha ver.
E, abrindo um velho armário com vários livros enormes, de capa dura marrom, de onde tirou um bem surrado e com a capa encardida e outro novinho em folha, me disse:
- O último livro de visitas, de 400 páginas, foi aberto com a assinatura e a mensagem de um brasileiro e recentemente foi fechado também por um brasileiro. Agora eu vou abrir o próximo livro e quero que esse também seja dedicado aos brasileiros. Então, por favor, deixe sua mensagem na abertura do livro, por favor.

Ele havia omitido o livro dos outros peregrinos que entraram antes de mim e, sabe-se lá quantas outras pessoas mais antes disso, apenas para que a primeira assinatura fosse de um brasileiro.Essa deferência dele me deixou até emocionado. Abri o livro e escrevi:

“Não sei o que vim procurar no Caminho de Santiago de Compostela, mas tenho certeza de que vou encontrar! E seja lá o que for, levarei de volta comigo para honrar e dignificar todas pessoas que eu estimo, com as quais eu convivo e que pretendo conviver pelo resto da minha vida, para que seja transmitido adiante, pelas próximas gerações.
Em nome de todos os peregrinos brasileiros, agradeço pela acolhida simpática do senhor Rufino.”

Logo abaixo, em outro pequeno parágrafo, registrei também no livro:

“Parabéns à minha filha Cintia que hoje, lá no Brasil, está comemorando seus dezoito anos! Que ela seja muito feliz sempre! Parabéns, minha filha! Te amo!”
E assinei, Villa Tuerta, Navarra, Espanha, 07/08/2001.
Lia mensagem completa para o senhor Rufino, que achou ótimo. Riu muito e comemorou, desejando felicidades à minha filha e agradecendo por ter deixado uma mensagem tão completa. Depois, me pediu para deixar uma mensagem de voz gravada no meu gravador de bolso:

- “Adios brasileños, vos soys una nación grande e racista! Si, si, gracias, señor!” e, com jeito de encabulado, soltou uma ruidosa gargalhada!

Curioso, lhe perguntei por que “racista” e ele, sorridente, explicou que era por ser um país onde convivem muitas raças em harmonia.

Na saída de Villa Tuerta sobe-se por uma colina de pedras, bem alta, de cujo alto se avista a Igreja do Sr. Rufino. Parei bem no topo para apreciar a vista e fazer uma foto da igreja vista de cima. As ruas do povoado estavam desertas e mais ninguém passava pela Igreja. De repente os sinos da igreja começaram a badalar freneticamente! Seria o Sr, Rufino me fazendo uma saudação? Acenei, como se ele estivesse me vendo de dentro das torres, bati mais uma foto e segui o meu caminho.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Santiago - CAPÍTULO II: De Roncesvalles a Pamplona


São cinco de agosto, sete e quarenta da manhã, estou começando a caminhar pelo segundo dia, saindo de Roncesvalles, a primeira estação do Caminho Francês em território espanhol. Foi minha primeira pousada na Espanha. Ontem, depois de um bom banho, o cansaço me pegou pra valer. Mas, ainda tive disposição para assistia à missa dos Peregrinos na Catedral ao lado do albergue. Foi , um cerimonial muito bonito, com muita musicalidade, celebrado por oito padres que são verdadeiros cantores. Um deles tocava um órgão de um som espetacular e todos cantavam fazendo duetos fantásticos. Tudo muito emocionante. Maravilhoso. Ao final, teve a benção especial aos Peregrinos! Poucos não deixam cair as lágrimas, especialmente quando o celebrante vem para o meio das pessoas e faz as orações pedindo proteção à Virgem Maria para todos os Peregrinos durante o caminho, e que o Divino Espirito Santo ilumine as trilhas e, também, a cada um ao longo de todo o Caminho. Pede também a proteção de Deus e do Apóstolo Tiago para os familiares de cada um, que estejam em segurança e paz, enquanto estivermos fora e que, depois da caminhada, que tenham a graça de voltar para as suas casas e encontrar as famílias bem.
Depois da missa eu estava tão cansado que, na manhã seguinte, eu nem me lembrava de quando subi de volta para o albergue. Me restam apenas vagas lembranças de quando eu coloquei o isolante térmico sobre os cobertores deles e me enfiei no saco de dormir. Era a primeira vez que eu ia dormir naquele trem, mas parece que estava confortável. Peguei no sono imediatamente. Tive uma pequena interrupção do sono no meio da madrugada, mas foi o suficiente para ouvir umas três ou quatro roncadas dos outros Peregrinos ao lado e dormi de novo. Acordei eram quase sete horas da manhã e constatei que o albergue já estava quase vazio! Quase todo mundo já tinha saído.
A manhã estava muito fria. Cheguei a cogitar de vestir um casaco mais pesado, mas acabei desistindo, pois a caminhada aquece o corpo e logo logo teria que parar para tirar. A saída é pela mesma rodovia que vai para Pamplona, num trecho muito bonito, com as margens cheias de um tipo de pinheiro e, em algumas partes, as copas das árvores se fecham por cima, fazendo uma espécie de túnel.
Não estou sentindo absolutamente nada em termos de cansaço! Não tenho sensibilidade ou desconforto nenhum nas pernas nem nas articulações. É como seu estivesse começando a caminhar no primeiro dia – talvez até mais confortável, pois tenho mais familiaridade com a mochila, que não me incomoda em nada e parece nem pesar nada.
Como eu fui um dos retardatários a sair do albergue, acabei iniciando nesse trecho sozinho. Depois da primeira curva da estrada, descortina-se uma reta longa com mata de ambos os lados. A partir daqui, olhando para trás, não se enxerga mais as edificações de Roncesvalles. Nenhum trânsito na rodovia, que permaneceu assim por um longo tempo, totalmente silenciosa, a exceção dos passarinhos que cantavam nas árvores do bosque. Com isso, me bateu uma certa sensação de isolamento. Logo adiante entrei numa trilha estreita – cerca de um metro de largura, de terra batida e cascalho, também no meio da mata fechada. Porém, agora a sensação de isolamento ficou mais intensa um pouco. Por isso, achei melhor retirar a fita de gravação e, pela primeira vez, colocar uma música brasileira, que é para matar a saudade.
Logo que saí de Roncesavalles, parei numa espécie de trailer pra comprar água e tomar um leite com chocolate, já que havia dispensado o café da manhã do albergue. Enquanto lanchava, conversava com dois rapazes que organizavam as tralhas ali na grama, se preparando para iniciar o Caminho a partir dali.
As comunidades católicas e instituições espanholas que administram e divulgam os Caminho de Santiago, consideram que o início oficial é Roncesvalles. É uma questão de prestigiar a parte pertencente ao território espanhol. Mas a tradição secular sempre se refere ao chamado “caminho completo” como tendo início em Saint-Jean-Pied-de-Port, na França.
Após lanchar e conversar um pouco nesse trailer, me despedi e peguei a estrada. Quase dois quilômetros depois, quando eu me aproximava para alcançar outros três peregrinos que seguiam vagarosamente pelo acostamento, reparei nos cajados deles e só então me dei conta de que havia deixado o meu no trailer. Entrei nos arbustos, como quem iria fazer alguma necessidade fisiológica rápida, deixei a mochila entre as moitas e voltei correndo. O cajado havia sido guardado pelo rapaz da lanchonete, que se desculpou por não ter como levar pra mim. Peguei-o e voltei correndo.
Cerca de uma hora depois, passei por um povoado muito interessante. As casas todas construídas em um estilo muito antigo que mais lembra a arquitetura alemã, ostentam nas portas ou acima do portal o ano de construção - 1800, 1824, etc... Mesmo já sendo quase nove horas da manhã, a impressão era que ninguém ali ainda tivesse acordado. Ninguém na rua! Bati algumas fotos das casas e, sem ter visto ninguém. Me parece que o nome do local é Espinhal. Mas, paradoxalmente, tudo é enfeitado com lindos vasos de flores. Nas sacadas das casas, nos degraus das escadas de entrada, nas janelas, tudo... Avistei uma catedral muito bonita, mas como já estava um pouco atrás, preferi não voltar pra conhecer. Pouco adiante havia uma fonte toda decorada e com vários vasos de flores, onde eu enchi o cantil d’agua e segui, pegando novamente a trilha de terra batida, subindo por uns campos de fazenda, com umas passagens muito bonitas.
Na saída do povoado, que não tinha mais que umas cinco ou seis quadras, alcancei um casal de jovens estudantes, provenientes da Alemanha. Embora a moça fosse chinesa, ambos estudavam em Zurique, de onde era o rapaz. Viemos conversando por um tempo e achei legal, pois tive muita facilidade de conversar em Inglês, com uma boa fluência. Talvez por causa do sotaque deles, que me facilitava uma compreensão melhor, uma vez que meu principal problema é entender. Por não serem muito fluente, eles falam o Inglês mais pausado, de um jeito que eu compreendia cem por cento. Contaram detalhes sobre os cursos e o que faziam na Alemanha e perguntaram muito sobre o Brasil. Falei do país, do que eu fazia, contei que tinha duas filhas no Brasil e que fazia o Caminho sozinho. Porém, a chinesa estava com bolhas nos pés e eles mal conseguiam andar num ritmo razoável. Dificilmente chegariam a Santiago pois, além disso, a moça era muito gordinha e mostrava não ter nenhum condicionamento físico. Para piorar, ao invés de um cajado leve, eles estão levando, cada um, um pedaço de pau grosso e pesado. O rapaz aparentava estar indo bem. Inclusive, disse que é a quarta vez que ele faz o Caminho e que estava bem disposto. Eu brinquei que ele era muito forte e que poderia colocar ela nas costas. Rimos e eu segui adiante, deixando eles pra trás.
Desde o último povoado, embora a maioria desse trecho da estrada seja no meio de bosques, em cada clareira observa-se que a região tem várias fazendas de pastagens, ao longo das margens. Porém, nas últimas centenas de metros, tenho a impressão de que há uma rodovia com movimentação de veículos logo ali do lado, a cerca de duzentos ou trezentos metros daqui, depois dos bosques.
Recordei que nas três vezes que fiz longas peregrinações, especialmente a Romaria, em Minhas Gerais, no Brasil, o segundo dia era o mais pesado. Costumava ser muito ponoso, pois logo cedo eu já saia com a musculatura das pernas muito dolorida. Aqui está sendo bem diferente. Mesmo tendo o peso da mochila nas costas, hoje é o meu segundo dia e eu não estou sentindo nenhum desconforto. A disposição que sinto, mesmo tendo dez ou onze quilos nas costas, é bem melhor do que as vezes que saí de mãos vazias para Romaria.
A partir de um certo ponto, o caminho some. Estou descendo agora por um despenhadeiro no meio de uma capoeira fechada. Praticamente não existe uma trilha, só uma espécie de picada no mato. Pelo menos, há setas indicativas pelo chão, mostrando que aqui, de fato, é um trecho do Caminho de Santiago, embora meio estranho! Há lugares em que é necessário passar agachado debaixo de troncos, segurando em raízes para não escorregar e cair morro abaixo ou passar por cima de moitas e macegas de arbustos. A uns duzentos metros à minha frente, avistei um casal de Peregrinos que vai descendo na mesma trilha. E já que eles seguem seguros de si, creio que sabem para onde estão indo e, então, vou segui-los. Volta e meia eles somem nas curvas do mato, mas depois avisto eles novamente. Vou acelerar um pouco e tentar alcança-los. E espero também que lá embaixo, no final, haja algum córrego ou, pelo menos, um rego d`água, pois eu estou com o cantil seco e com sede.
Depois de descer um tempão nessa picada íngreme no meio do mato, a trilha chega a uma estrada de asfalto. Mas, água que é bom, nada! E o meu alívio durou pouco, pois a cerca de uns cem metros à frente, o Caminho sai pela capoeira outra vez, agora subindo pelo outro lado da estrada. E, logo em seguida, pega-se uma estrada construída com um calçamento de pedra, algo muito antigo. Apesar de irregular, é muito bem acabado. É provavelmente uma estrada romana milenar.
Em alguns pontos a estrada praticamente se confunde com a vegetação de arbustos e espinheiros das margens, algumas vezes, obrigando-me a ter que passar pelo mato pra fugir dos espinhos, outras vezes sobre restos de troncos e galhadas caídos.
Após andar com dificuldade por uns quinhentos metros, no máximo, por essa estrada de pedras, comecei a sentir um certo desespero, sobretudo por causa da sede que estava ficando insuportável e eu nem imaginava onde poderia achar água pois, como eu estava subindo, o mais provável é que fosse encontrar algum planalto seco cascalhento no final da trilha. Logo, eu já não pensava em mais nada! Não queria andar, muito menos subir morro! Só queria encontrar água pra beber.
Um pouco mais adiante, quando a mata começava a ficar menos densa, já ganhando o alto de uma colina, ouvi vozes vindo atrás de mim. Não demorou muito pra me alcançarem. Eram aqueles dois espanhóis, de Madri, os mesmos que aprontavam a tralha hoje de manhã em Roncesvalles, quando voltei pra buscar o cajado esquecido na lanchonete. Vinham falando e cantando alto, os dois ao mesmo tempo, numa tagarelice eufórica que mais pareciam estarem indo para alguma festa. Os cumprimentei tentando disfarçar o mau humor e comentei que havia ficado sem água há algum tempo. Prontamente um deles sacou da mochila uma garrafa PET de um litro e meio, ainda pela metade, e me ofereceu.
No ritmo que chegaram, eles seguiram em frente, fazendo a mesma algazarra, depois de mandarem abraços pra todas as moças bonitas do Brasil.
Alguns quilômetros depois eu os alcancei, sentados na sombra de uma árvore contando casos e dando risadas, ainda na mesma animação! Eu já estava novamente com sede, mas por questão de ética, sei lá, fiz apenas alguns comentários e gracejos com eles e segui em frente, sem dar oportunidade sequer pra que me oferecessem mais de sua pouca água.
Já era mais de onze horas da manhã, o sol se tornaria mais intenso a partir desse horário e se por acaso não encontrasse um boteco, um riacho ou um chafariz na beira da estada nas próximas horas, eu estaria frito. Então, lembrei-me de uma última maçã num bolso da mochila, que eu trazia desde Saint-Jean e comecei a comer. Pelo menos havia alguma água na fruta.
Até que enfim resolvi meu problema! Passei por um riacho com a água muito limpa, onde bebi bastante e enchi o cantil. Logo adiante, entrei num pequeno povoado com algumas poucas dezenas de casas. E, assim como os outros, na praça central tem uma bela igreja e, dessa vez, vou entrar pra fazer uma oração rápida e tirar umas fotos antes de seguir. Não pude deixar de reparar que, como todo lugarejo, em qualquer lugar do mundo, aqui também tem pardal! Muitos pardais e barulhentos...

De repente, o canto barulhento dos pardais foi abafado pelos sinos da igreja. Por aqui sempre se ouve sinos de igrejas por todo lado, mas é a primeira vez que começam a tocar justamente quando eu estou caminhando pra lá. Parece que estão me chamando. Notei que no alto das torres haviam quatro sinos muito grandes, que começaram a bater cada vez mais agitados, na medida que eu me aproximava. Um festival de badaladas! E, interessante, que praticamente não tem gente nas ruas, à exceção de um casal de velhinhos e um senhor de bicicleta que acabou de passar.
Ao chegar na porta da Igreja, descobri porque as ruas estavam vazias: é que todo mundo estava lá dentro. Deduzi, então, que era hora da missa e que os sinos, na verdade, não tocavam pra mim – que decepção – mas sim para avisar que a missa estava pra começar. Daí, me lembrei que era domingo! Então está explicado essa missa nesse horário e o povo todo na igreja.
Comecei a entrar, meio encabulado, tentando passar despercebido até chegar à primeira fileira de bancos, próximo à porta, por uma razão estratégica: pra que quando eu quisesse dar o fora, a qualquer hora, ninguém notasse. Me aproximei do banco, pé ante pé, pra ninguém me ver mas, quando fui descer a mochila pra me ajoelhar, o meu cajado deu uma baita pancada naquele banco de madeira enorme e o barulhão ecoou pela Igreja inteira. Eu quis acudir, mas ele bateu de novo, mais forte ainda e, dessa vez, não teve jeito! As pessoas que estava mais perto me olharam, e eu fiz um gesto de desculpas.
Quando eu pensei que estava ajeitando a tralha, bem disfarçadamente, pra conquistar a minha tão desejada invisibilidade, o Padre, que a essa altura, já estava falando lá no altar, começa a chamar:
- Peregrino! Senhor Peregrino!
Antes de olhar, eu pensei: “Meu Deus, deve ser comigo e eu vou levar bronca”. Naquele momento eu não sei o que era maior: a raiva do danado do cajado ou o arrependimento de ter entrado naquela Igreja. E, de fato, ele olhava pra mim e, fazendo sinal para me aproximar, dizia:
- Venha para a primeira fila, Peregrino!
Eu fiz um gesto agradecendo, e disse que ali mesmo estava bom pra mim. Mas ele insistiu e, pelo menos, um alívio, disse que era uma honra ter a presença de um Peregrino, que passava por ali, a Caminho de Santiago de Compostela.
Não teve  escapatória! Juntei a tralha, meio desajeitado, e saí arrastando o cajado barulhento, catando boné que caía no chão e tentando enganchar a alça da mochila no ombro. E, na medida que eu caminhava pelo corredor central da igreja, todos me olhavam, inclusive o Padre, que parou de falar e ficou me esperando fazer a minha mudança de lugar desastrosa, e eu sem ter onde enfiar a cara, de tanta vergonha. 

Quando eu me aproximava da fileira de bancos da frente, as pessoas se ajeitaram pra liberar espaço pra eu sentar, inclusive alguns idosos, o que me deixou ainda mais constrangido. Sentei bem na pontinha, agradecendo acanhado, quando o Padre recomeçou a falar, se dirigindo a mim:  
- Há seculos que este povoado, por tradição, acolhe e cuida dos Peregrinos que passam por aqui. Por isso, nos sentimos honrados tendo você nessa celebração. Seja muito bem vindo, Peregrino!
Nesse instante o nome "Peregrino" me soou com um sentido e uma força diferentes, que até então eu não imaginara. Uma emoção tomou conta de mim e notei que meus olhos ardidos haviam sido inundados de lágrimas. Foi como se eu acabasse de ser reconhecido por uma designação de honra ou um título da mais alta nobreza, ou como se eu acabasse ser aceito, ao final do mais honroso ritual de iniciação ritualística. Elevei meus olhos para o altar e rendi graças a Deus. 

Ao final da missa, fiz questão de ira à Sacristia agradecer pelas honras e aproveitei pra fazer um pedido especial. Tirei da mochila algumas pombinhas símbolo do Divino Espírito Santo que eu havia mandado fazer em ouro maciço e pedi ao Padre que as abençoasse, pois seriam relíquias sagradas para mim e para minhas filhas, depois que voltasse com elas do Caminho. Ao invés de pegar as jóias, ele me pegou pelos punhos com as duas mãos, me olhou nos olhos e disse:

- Você vai carregar essas pequenas jóias até o altar do Apóstolo Tiago, em Santiago de Compostela, enfrentando todos as penitências que o Caminho lhe impõe e, ainda, quer que eu as abençoe? Pois saiba que nenhuma bênção minha será mais sagrada do que os sacrifícios pelos quais você vai passar, carregando essas suas relíquias! 
E, com jeito meio moleque, levantou-se, bateu nas minhas costas e disse: 
- Bom caminho, Peregrino! Que Deus lhe acompanhe e lhe proteja até a Galícia! Reze por mim no Caminho e quando lá chegar, peça graças ao Apóstolo por mim
Sai daquele povoado com a alma leve e, logo adiante, me embrenhei outra vez, mata adentro. Pelo menos aqui a trilha é uma estradinha limpa, livre de arbustos e, principalmente, de espinheiros. Dá pra perceber que a estrada principal asfaltada segue ao lado, a alguns metros. Dá para ver carros e caminhões passando.
A região da Cordilheira dos Pirineus, que faz fronteira entre a França e a Espanha, fica bem no centro de um território ocupado por uma etnia muito antiga e tradicional, aliás, bem conhecida da mídia atual por causa dos movimentos separatistas que eles costumam promover, chamado Povo Basco. Inclusive, essa região, que tem parte na França e parte na Espanha, é conhecida como “País Basco”. Os povos dessa etnia, até hoje têm muito orgulho de sua cultura, de sua origem e de sua história, enfim. Tanto que eles se apresentam, não como espanhóis, mas como bascos. Têm idioma próprio, apesar de que todos falam também o espanhol. Ontem mesmo eu conheci uma família – a mãe a tia e um casal de adolescentes que, apesar de terem nascido e viverem na França, disseram pra mim que eram bascos. Assim, a despeito da fronteira entre França e Espanha que, já há vários séculos divide o território deles, sempre preservaram a mesma cultura. Por um período na história, me parece que o chamado País Basco compunha um mesmo reino com a atual Navarra. Esse detalhe eu tenho que pesquisar.
São 12:15hs e eu continuo andando pela trilha no meio da mata, porém numa região cuja vegetação lembra mais o cerrado brasileiro - árvores baixas, com macegas de arbustos e espinheiros embaixo. A trilha bastante estreita, às vezes chegando a meio metro de largura e, volta e meia, galhos de árvores atravessados, atrapalhando a passagem. Com isso, às vezes tem-se que agachar para passar e isso com a mochila nas costas não é nada confortável.,
Estranhamente eu não encontro quase ninguém no Caminho! Considerando a quantidade de gente que havia naquele albergue hoje de manhã, eu acho que todo mundo tomou a frente e eu fiquei para trás. Isso deve ser por causa do horário que levantei e, ainda, porque parei para assistir à missa.
Logo adiante tem uma subida forte e longa! E, como sempre, com a trilha coberta de pedras – uma espécie de cascalho muito grosso, com pedras de até dez centímetro. Nem sei se isso pode ser considerado cascalho. De longe eu avistei um grupo de ciclistas empurrando as bicicletas na subida. No meio do trecho eles pararam, largaram as bicicletas no chão e sentaram no barranco. Os alcancei ainda ali e parei um pouco para restabelecer a respiração da subida rápida e conversar. Eram espanhóis de Andaluzia. Pedi pra tirarem uma foto minha e segui em frente.
São duas horas da tarde e desde de que sai do último povoado, onde assisti à missa, já andei cerca de quinze ou vinte quilômetros de trilha praticamente dentro da mata – ora mais parecida com cerrado, ora mata fechada. Apenas cruzei, por duas vezes, a estrada asfaltada que, agora, parece estar muito longe. Não ouça mais ruído de carros, nada! Silêncio total, a não ser passarinho e grilo cantando no mato.
Além dos ciclistas, passei apenas por mais um grupo de Peregrinos espanhóis que, inclusive, caminhava dividido em dois subgrupos, mas eram da mesma família! Não vi mais uma vivalma por aqui. Comentaram que há um albergue adiante e, pelo que disseram, deve estar a mais ou menos uma meia hora de caminhada daqui. Mas, como ainda é cedo, não creio que ficarei pra pernoitar. Devo andar mais.
Acabo de avistar um povoado bem embaixo, no final de uma colina longa. Deve ser onde tem o tal albergue. Até lá será muita descida forte, numa trilhazinha complicada, que mais parece aquelas trilhas de gado cavadas na terra seca, cheia de barrancos e pedra soltas e tão estreita que às vezes não dá pra mudar o passo sem quicar um pé no outro! Pra piorar, as pedras aqui são roliças e lisas. Se pisar em cima com o peso do corpo, com certeza, o tornozelo vai pro beleléu! Mas vou enfrentando devagarzinho, segurando nos ramos e nos barrancos pra não escorregar. Às vezes é melhor sair e andar pelos pastos. Isso quando é possível, porque está repleto de espinheiros arranhando e desfiando a calça da gente! Ôh, trem difícil!
Chegando na baixada, já próximo do povoado, a pastagem é mais limpa e, ao invés das pedras roliças da descida, aqui eles colocaram brita na trilha – muita brita e toda irregular! Tem pedra de todo tamanho. Não sei pra quê isso! Deve ser pra impor mais dificuldades aos Peregrinos. Só pode ser pra piorar a vida da gente!
Já ouvi dizer que tem Peregrinos que fazem essa caminhada de chinelo! Queria ver um desses passar por aqui! É impossível! Definitivamente impossível. De chinelo, nem aqui nessas britas nem na serra lá em cima, nem nas trilhas do meio da mata lá de trás, não teria a menor condição! Peregrino de chinelo aqui, desiste!
Acabei de descer a parte pior, mas comecei a sentir algumas dores na articulação superior do fêmur direito. Deve ser de tanto levar tranco nesses barrancos na descida do morro. Estou entrando no povoado e vejo que é bem maior do que eu imaginei. Maior, em termos – ao invés de ser oito ou dez casas, deve ter doze. Não passa de uma currutela! Mas todas as casas são construções muito antigas, estilo europeu com telhado alto e muito inclinado. São casas bonitas!
E parece que nesse povoado está acontecendo uma festa! Tem um som alto, tocando uma musiquinha típica de folclore espanhol. Às vezes um locutor fala alguma coisa... Mas deixa esse povo aqui fazer a farra deles. Não sei se paro por aqui, ainda mais com barulho de festa. Tenho muito chão pela frente.
Logo na entrada, vi a placa com o nome do povoado – Zubiri, além da seta indicando o Caminho de Santiago e outras inscrições ilegíveis pra mim! Sei lá que língua é isso! Não dá pra ler. Esse povo é Basco ou Navarro e a escrita deles é diferente. Um pouco mais adiante outra placa indica o albergue. 

Quando eu vinha descendo ali atrás, ainda nas trilhas do meio do pasto, reparei uns caras gritando e acenando pra mim e imaginei que fosse apenas alguém entusiasmado pelo vinho, na festa, fazendo alguma presepada. Mas quando me aproximei mais,  reconheci quatro dos italianos com os quais andei ontem, saindo de Saint-Jean. Um deles acenava e gritava “Brasiliano! Brasiliano!”. O outro gritava “Cruzeiro, de Belo Horizonte!” - Eu estava usando uma camisa do Cruzeiro. 
A praça central, uma pracinha bem pequena, era rodeada por alguns casarões clássico bastante antigos, todas as janelas e varandas enfeitadas com muitas flores. No meio, o equipamento de som tocava, nesse momento, alguma coisa mais animada, tipo música norte americano.
Os italianos vieram me receber na entrada, e já foram me mostrando o resto da turma! Eram mais de vinte, trinta, sei lá! A julgar pelo falatório, dava pra pensar que fossem uns oitenta. Era o maior barulhão. Estacionados na praça umas duas ou três vans, que faziam a logística de apoio deles. Me ofereceram vinho e um tipo de biscoito, eu aceitei um tico, só por educação, me despedi e segui em frente.
Eu até poderia ficar por aqui, tomar um copo de vinho com os italianos e comer alguma coisa, mas eu não estou com muita disposição. Sei lá! O humor meio comprometido por causa desse calorão e dessas trilhas buraquentas. Vou seguir.

Já saindo de Zuburi, entrei numa mercearia que parecia ter bastante coisa interessante e comprei umas frutas, uns chocolates, um sanduíche de pão com queijo e presunto, que eles chamam por aqui de Bocadilho, e mais uma embalagem de um litro de iogurte de morango, que eu resolvi tomar toda, na hora. Não por ganância nem só pela fome, mas porque era conveniente desocupar as mãos, já que não dava para colocar a embalagem na mochila, sem risco de derramar.
Assim que saí do povoado, alcancei parte do grupo de espanhóis que eu havia deixado pra trás, há algumas horas. Estavam sentados à beira de um rio, na sombra de uma árvore, fazendo um lanche. Por desânimo de descer o pequeno barranco, me sentei ali mesmo, na beira da estrada, pra conversar um pouco, enquanto acabava de tomar o meu litro de iogurte. De repente aparece, lá na saída da rua, o rapaz da mercearia correndo, balançando um cajado no ar e gritando: “Hei, Brasil! Hei, Brasil!”. Só então percebi que era o meu cajado, que eu havia esquecido, pela segunda vez, só nesse dia. Fui ao encontro dele e peguei o cajado, agradecendo. Felizmente eu sou o único brasileiro por aqui. Ainda não cruzei com nenhum e nem ouvi falar de brasileiros por esses trechos que passei. Se há algum, deve estar bem atrás ou bem à frente. Ali mesmo tive uma ideia: desamarrei uma espécie de cordoalha que estava ociosa na mochila, de cerca de um metro e meio, e amarrei na alça do cajado. Assim, nem que fosse arrastado, ele iria comigo aonde eu fosse.
São três horas da tarde! Ainda está muito cedo pra pensar em parar, Como a noite só chega lá pelas nove horas, ainda posso andar muito. Me disseram que há outro povoado, que também tem albergue, localizado a uns oito quilômetros daqui. E, caso não encontre vaga no albergue, há também um pensionato, onde posso hospedar. Os espanhóis com quem eu lanchei na saída de Zubiri, disseram que também vão até lá. Achei melhor seguir na frente.
Depois da ponte, o Caminho segue por uma trilha de cascalho, muita pedra e bastante estreita, no meio do mato, como sempre, e que vai margeando a estrada de carros. Vejo a estrada há uns 500 metros daqui.
Na saída de Zubiri, antes da mercearia, encontrei um grupo de jovens alemães, moças e rapazes entre dezoito e vinte e poucos anos, alguns muito estropiados pela caminhada. Me disseram que haviam saído também de Saint-Jean, porém há seis dias atrás. Só que decidiram , por aventura, fazer também uma trilha chamada “Trilha dos Pirineus”, por onde as pessoas da região fazem por esporte, inclusive no inverno, quando se torna muito difícil por ficarem totalmente cobertas por neve e com risco de avalanche, por isso, nessa época só são feitas só por montanhistas profissionais. Já havia lido a respeito! Há rotas com graus de dificuldade variada, em algumas das quais se leva dezoito ou vinte dias para completar.
São 15:30hs da tarde e o trecho de cascalho chega a uma estrada asfaltada, com subida bem acentuada. No alto, pega-se uma espécie de via lateral de areia grossa branca, que vai se distanciando da via principal, numa chapada plana. O sol está muito quente, a ponto de queimar a cabeça, embaixo do boné, e queimar os braços. A temperatura, seguramente, não está abaixo de trinta graus. É muito calor! Pra aplacar esse calorão, liguei no microgravador uma música de Bee Gees e, com tanto isolamento, já me sentindo meio cansado, comecei a me sentir um clima meio solitário. Não há sequer sinais de gente por essas bandas, não passa ninguém, a não ser um ou outro carro que trafega pela estrada principal, agora bastante longe daqui, a pelo menos uns três quilômetros daqui. No mais, isso aqui está parecendo um deserto. Parece que nenhum Peregrino arriscou fazer esse trecho à tarde, possivelmente por causa do calor que, se pre mi já está insuportável, imagino para os europeus. Nem sobrevivem.
Lá em casa, no Brasil são dez e meia da manhã. O que será que minhas meninas estarão fazendo agora, nesse domingo de manhã? Enquanto isso, eu aqui nessa distância, dez mil, doze mil quilômetros, sei lá, no final da tarde, andando nesse solzão. Me deu uma sensação de astral meio baixo aqui, um isolamento meio sinistro. Mas não posso entristecer! Vamos andar, que caminhar, movimentar o corpo, faz bem pra espantar a tristeza.
Depois de um longo tempo sem ver setas indicativas do Caminho, aparece uma apontando para uma espécie escada de pedra, que desce na direção de uma mineração, aparentemente uma extração de areia para construção. Tudo indica que devo atravessar ao lado, pois logo além, a uns três ou quatro quilômetros adiante, depois de um vale estreito com serras dos dois lados, avista-se um povoado. Um vale estreito e comprido. Tomara que seja onde me disseram que daria para me hospedar, pois eu acho que não vai dar pra ir muito longe. Afinal, já são quatro e meia da tarde e o sol está uma brasa, além de um mormaço, feito um vapor superaquecido que que sobe da terra.
Agora, o caminho segue margeando aquele vale estreito, que eu mencionei. Trilha estreita, ora de areia branca, ora de brita fina. Alguns trechos de pastagens, às vezes atravessando capoeiras de matas, outras vezes passando ao lado de cercas ou antigos muros de pedra que dividem fazendas. Onde há construções, como esses muros, parece que é tudo muito antigo, como alguns muros, que são totalmente cobertos de limo, indicando que estão aqui há séculos.
Estou passando pela margem sul do vale. O sol, ainda muito quente, está a minha direita e, ao que parece, não está tão perto como imaginei. Já andei mais de uma hora e meia e apenas passei por duas senhoras franceses, ambas aparentando terem mais de cinquenta ou cerca de sessenta anos, que vinham descendo no meio da pastagem, meio desequilibrados, dando a impressão de que morriam de medo de escorregar cair. Coitadas, sem nenhum traquejo para caminhar em nessas trilhas no meio dos pastos. As acompanhei por algum tempo. Por sorte elas falavam Inglês e, assim, deu para conversar um pouco. Elas perguntaram algumas coisas sobre o Brasil, curiosas como todo europeu. Me disseram que iniciaram o Caminho em Roncesvalles hoje, saindo às cinco horas da madrugada. Disseram que vêm parando em todos os povoados pra descansar. Um pouco mais abaixo chegamos a uma estrada pavimentada e eu sentei na margem pra tirar uma pedra na bota, enquanto elas tomaram a frente e seguiram adiante.
São quase cinco horas da tarde e o sol muito forte, agora diretamente no rosto. Lá em casa é meio dia. Que diferença. Passei palas francesas, sentadas na grama na beira da estrada, comendo alguma coisa. Apenas desejei um “buen caminho”, brinquei que estava indo pra muito longe e segui adiante. Agora já sumiram de vista nas curvas atrás. Sinto um relativo cansaço físico. Não nas costas, como eu pensava que fosse ser, por causa da mochila, mas nos pés. Me fez lembrar das minhas viagens a Romaria, em Minas Gerais. Nessas caminhadas sempre havia alguns dias que o s pés doíam muito. A dor está bastante intensa. Se não fosse o cajado aqui para aliviar um pouco a pressão sobre os pés a cada passada, talvez eu não suportasse. Nas subidas não incomoda tanto, mas nas descidas fica muito dolorido. A comparação que eu faço agora, é que seria mais fácil fazer uma hora de corrida do que dar dois ou três passos aqui. É a sensação que eu tenho. O pé dói demais e, pra piorar, a sensação de calor que vem do chão, parece cozinhar a pele. Não posso parar, pois esfriar os músculos do corpo agora pode me complicar e eu não consigo andar mais em seguida. Estou forçando ao máximo pra manter o ritmo mais acelerado possível. As costas a parte dos quadris estão encharcados. O suor é tanto que escorre pelas costas e pelo rosto e provoca ardor intenso nos olhos e sabor salgando na boca. Está muito pesado agora! Um trecho muito duro.  
Felizmente entrei num trecho onde a estrada passa nomeio de um pinheiral, que praticamente cobre tudo por cima, formando um túnel em alguns trechos. A sombra, com o calor menos intenso aliviou bastante o meu estado de estresse físico. Pelo que percebo, o vale ficou ainda mais estreito. As montanhas do outro lado estão bem mais próximas e eu já ouço ruído dos carros, o que indica que a estrada principal está logo ali abaixo. Que alívio! Civilização à vista ou, pelo menos, aos ouvidos. A temperatura mais amena sob as copas das árvores, me faz sentir um pouco melhor, mas, a cada passo, sinto como se os músculos do peito do pé e da panturrilha estivessem sendo dilacerados. O calcanhar também dói bastante, a cada vez que toca o chão. Imagino que amanhã que isso aí vai se transformar numa contusão brava. Mas eu tenho que continuar andando e ainda vou chegar.
Descendo pelo meio da mata de pinheiros, cheguei à beira de um riacho de uns dez metros de largura com correnteza de água limpa, mas bem rasinho. O ambiente é muito fresco, úmido e confortável. Dá vontade de parar e relaxar um pouco por aqui, mas se eu fizer isso não vou conseguir, sequer, levantar depois pra caminhar. Só cheguei na margem pra dar uma olhadinha e vamos seguir em frente.
Por um bom tempo a trilha segue margeando o riacho, de onde dá pra ver o leito da correnteza logo ali, depois da estreita faixa de capoeira. Mais adiante nota-se que a profundidade do riacho é maior e a água é praticamente parada. Pode ser que haja algum represamento adiante.
Logo à frente há três rapazes dentro do riacho, aparentemente pescando com uma espécie de rede. Na outra margem do rio há um grupo maior de pessoas e umas barracas. Bem, então há um camping por aqui, várias crianças brincando mais adiante! E, pouco mais à minha frente, posso ouvir ruído de carros passando.
São quase seis horas da tarde e eu acabei de pegar um trecho de estrada asfaltada que, pelo visto, não é curto e, portanto, devo ter muito chão pela frente até chegar a alguma civilização. Já me afastei bastante do rio e, por suspeitar da limpeza da água, não bebi e nem enchi o cantil e, pra piorar tudo, um rapaz ali atrás, aparentemente um morador da região, me disse que o local onde pode hacver algum albergue está a mais de cinco quilômetros daqui. Estou passando por trás de umas casinhas, parece chácaras, mas tudo fechado! Percebi que uma delas estava com a porta aberta e entrei pra ver o que havia dentro. Apenas algumas ferramentas, umas sacas de alguma coisa no chão, mas ninguém. Nenhuma vivalma. Melhor continuar subindo. Tem que haver alguém mais adiante ou, pelo menos, alguma torneira por essas bandas.
Seis e quinze da tarde e o sol forte pela frente, muito forte ainda, diretamente no rosto. Pelo menos eu consegui água numa pequena mercearia, logo atrás ali. Segundo o rapaz, a pousada onde eu pretendia pernoitar já ficou prá trás, bem atrás. Passou batido, sem que eu visse ou, talvez eu tenha me perdido naqueles morros de pastagens, onde me encontrei com as francesas. O próximo albergue, de fato, está a cerca de cinco quilômetros adiante. Agora, não me resta alternativa! Tenho que seguir em frente. Seria uma hora e pouco de caminhada até chegar lá e, enquanto isso, é rezar para ter vaga. Os caras chegam nos albergues meio dia, ocupam a vaga e ficam por ali fazendo turismo. Mas espero ter sorte.
Outro sujeito por quem passei aqui me disse que, na verdade, esse albergue está em Pamplona, na entrada da cidade. Sendo assim, se eu estou pra entrar em Pamplona, melhor seguir até lá mesmo e descansar bem, se for o caso, até procurar um hotel. Talvez eu tenha me entusiasmado muito, pois o que outros Peregrinos costumam fazer, são três caminhadas até Pamplona. Eu estou fazendo com duas. Com esse calor todo, foi uma estupidez.
Acabo de pegar o asfalto, indicando que estou entrando na área urbana, depois de ter subido uns morros de terra seca dura e muito quente, um tipo que a gente conhece no Brasil por “toá”. Sinto como se os meus pés estivessem sendo assados em brasa viva e, depois de um tempo de trégua, aquela mesma dor na sola dos pés e na panturrilha voltou, agora com mais intensidade e, ainda, sinto dor intensa nas costas – uma dor diferente da anterior. O calor está escaldante.
Não sei se por ter cometido outro erro de rota, a minha chegada até aqui, na entrada da cidade, foi pelo meio de umas pastagens, nas tais trilhas de “toá”, numa subida muito íngreme, ao lado um desbarrancado enorme que vai dar num pequeno córrego lá embaixo, a uns cem ou cento e cinquenta metros – se alguém escorregar e cari aqui, não se salva. No trecho final, pelo menos em alguns trechos mais perigosos, havia um corrimão rústico de madeira velha, que proporciona uma melhor sensação de segurança.
Na verdade, o que parecia ser entrada da cidade, não era. As poucas casas que avistei, ficaram pra trás. Estou andando a mais de meia hora e outras duas ou três construções que acreditei ser o albergue, na verdade não era. Pouco atrás encontrei duas italianas, mãe e filha, meio perdidas, também em busca de soluções para pernoitar por ali. Começamos a conversar, a mãe meio estressada e a filha reclamando, enquanto passávamos por uma restinga de alecrim seco, com mais subidas e trilhas acidentadas. Por um momento tive a impressão de ter avistados alguns prédios depois de uma colina, o que acalmou um pouco a italiana, mas quando reparei que, aparentemente, se tratava de um galpão industrial, ela mudou de humor outra vez e voltamos a falar de outras coisas até que, de repente, estávamos dentro da cidade. Na verdade, como fui saber depois, não era Pamplona, mas sim uma cidade pertencente à região metropolitana, dentro da mesma área urbana.
O único albergue da região era logo na primeira quadra, mas como era de se suspeitar, estava lotado. O atendente não muito simpático, não deu espaço pra tentar negocial alguma alternativa. Com isso, a italiana mãe se estressou de vez. Sugeri, então, que ela pegasse um taxi para um hotel e, amanhã de manhã, retornasse para este ponto pra seguir o Caminho e disse que eu também faria o mesmo. Ela gostou da ideia e, rapidinho, entraram num taxi que passava e se mandaram. Eu fiz o mesmo.
O taxista me deixou na frente de um pensionato no centro de Pamplona, a menos de quatro quilômetros dali. Só de pensar que não vou ter que desfazer essa mochila pra pegar saco de dormir, é uma graça divina. Essa cama macia, com esses lençóis brancos cheirando a limpeza, me faz sentir um rei! Mas pensar que amanhã tenho que começar tudo de novo, me faz crer que eu não devo estar bem das ideias. A dor nos pés está muito forte, insuportável. Nesse momento a minha consciência me convence de que eu não serei capaz de caminhar de novo! Nunca mais! Ainda bem que o organismo tem uma capacidade inacreditável de restauração e eu sei que vou me recuperar e amanhã devo estar pronto para pegar a estrada de novo.


Cap III - De Pamplona a Puente La Reina