quarta-feira, 23 de maio de 2018

Santiago - CAPÍTULO I: De Saint-Jean-Pied-Port a Roncesavalles

Cordinlheira dos Pirineus - França

Hoje são 4 de agosto, 6:35 da manhã. Estou saindo da cidade de Saint Jean Pied Port, na França, começando a minha aventura rumo a Santiago de Compostela, com cerca de 830 km pela frente, que eu pretendo vencer a pé.
À minha frente a famosa Cordilheira dos Pirineus, um ermo de montanhas sucessivas que parecem não ter fim, nem em distância nem em altitude. Atrás de mim, a pequena Cidade francesa fundada na Idade Média. Apesar de muito bem limpinha e conservada, alguns prédios e pontes indicam que esta cidade deve ter mais de mil anos.
Ontem à noite, quando eu cheguei em Saint Jean, todos os refúgios e albergues de peregrinos já estavam fechados. Procurei também pelo escritório dos Associados do Caminho de Santiago para carimbar o meu passaporte Peregrino mas, como era mais de 10 horas da noite, estava fechado também.
Fiquei saracoteando pela rua para ver se encontrava alguém para me dar uma informação e também para arranjar alguma coisa para comer e, principalmente, um lugar pra dormir. Só encontrei uma espécie de trailler de lanches onde haviam rapazes bebendo e conversando. Tentei pedir informação, mas nenhum deles falava espanhol nem inglês e muito menos português. Eu desisti e saí meio enfezado, sem dar muita satisfação. Dizem que os franceses são assim: saem sem nem abanar o rabo. Então, eu devo ter saído à Francesa.
Eu já estava meio desesperado. Muito cansado, depois da maratona de quase 20 horas de viagem do Brasil até Madrid e depois da loucura para conseguir chegar a Pamplona e, ainda, da dificuldade para arranjar um taxi que me trouxesse até aqui.
Quando eu descia de volta a mesma rua que eu havia subido até o final da cidade, vi uma senhora, bem velhinha na janela de um casarão. Tentei conversar com ela e pedir informações e, apesar dela não ter entendido nada do que eu falei, pelo menos entendeu do que eu precisava. Desceu do primeiro andar, abriu a porta, apenas com gesto me chamou pra dentro, mostrou um quartinho, onde havia duas camas de campanha, dessa dobráveis. Apontou pra cama e, assim, deu pra entender que ela me daria pouso ali.
Era um casarão que não tinha menos que uns 200 anos de construção, com cheiro de mofo, apesar de estar aparentemente bem limpo. A iluminação muito fraca, mal dava para ver que a estrutura da casa era toda em madeira, inclusive o piso de assoalho, que rangia quando a gente andava.
Tentei conversar, perguntar se havia algum lanche e saber se ali era uma espécie de albergue ou pensionato, mas ninguém entendia nada. Nem eu nem ela. Ela também não falava nem inglês nem espanhol.
Daí, ela foi numa cristaleira antiga e pegou um pedaço de papel e uma caneta que escreveu e me mostrou. Eu olhei aquilo e achei que ela tivesse escrito o número 50 e deduzi que a velha estava me apresentando a conta, para pagamento do pernoite adiantado. Fui na mochila e comecei a vasculhar o dinheiro pensando se ela aceitaria pesetas ou dólar, pois eu nem sequer sabia qual era a moeda francesa. Peguei algumas notas e pus na mesa para ela me ajudar a separar o valor devido.
Mas a senhora começou a rir e eu desconfiei que estava cometendo alguma gafe. Com muita dificuldade, entendi que aquilo que ela havia escrito não era o número 50. Era o nome dela: JÔ. A letra J escrita por no papelzinho era exatamente igual ao número 5.
Já que eu estava com o dinheiro na mão e muito cansado de tanto tentar falar em outras línguas que eu nem sabia direito, pedi a ela pra aproveitar e já deixássemos pago.
Ela, vendo que eu tinha pesetas espanholas, fez uma continha e me mostrou que o valor seria mil e duzentos e pouco Pesetas, algo em torno de uns 15 reais.
O meu trajeto até aqui foi bem tumultuado, mas interessante. Depois de ter enfrentado uma conexão de mais de seis horas no aeroporto do Rio de Janeiro, por causa de um problema que atrasou a decolagem do voo, eu acabei chegando em Madrid por volta de 4 horas da tarde e, por disso, perdi a conexão para Pamplona. Tive que bater perna prá lá e pra cá no aeroporto Barajas, em Madrid, atrás de funcionários da Varig, e só consegui embarcar ás nove horas da noite, chegando a Pamplona por volta de onze da noite. De lá, peguei um taxi para Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, a cerca de oitenta e poucos quilômetros.
O taxista, chamado Jose Antônio, disse que conheceu o Brasil há vinte e poucos anos atrás, que fez uma viagem que entrou pelo Rio de Janeiro, foi a São Paulo, Mato Grosso e Rondônia. De lá, pegou o Rio Madeira de barca foi até Manaus. De Manaus parece que foi ao Garimpo de Serra Pelada, depois circulou por quatro ou cinco capitais do Nordeste. Um passei que poucos brasileiros já fizeram. Mostrou conhecer muito da história. Comentou que antes de a Espanha ser dominada pelos Árabes, no século doze, o país era constituído de quatro reinos, chamados Reinos Católicos. Depois foi invadida pelos árabes, que dominaram a península Ibérica por mais de setecentos anos. Portanto, antes de toda essa religiosidade aqui, o país era Árabe Muçulmano. Um paradoxo cultural.
A estrada de Pamplona até Saint-Jean atravessa a Cordilheira do Pirineus, que divide a Espanha da França. É muita serra, muito zigue-zague pela estrada! Foi uma note de lua cheia que, ora aparecia de um lado, ora do outro, ora pela frente, ora por trás, tantas eram as curvas que o taxi fazia.
Mas depois de tanto transtorno de ontem e da noite pouco confortável, eu decidi que mereço um bom café da manhã, antes de pegar a estrada. Reparei que na saída de Saint-Jean, logo depois da ponte, havia uma espécie de mercearia ou lanchonete, a umas duas quadras dali, onde eu comi um sanduiche tostado com uma fatia de presunto e um leite chocolate e comprei uns queijinhos e salaminhos pra levar na mochila. Afinal, eu não sei o que me espera pela frente. O melhor de tudo foi que eu comprei também um cajado, muito importante para servir de apoio no Caminho, e umas conchas Santiago e pendurei algumas na mochila.

Já são dez e meia da manhã. Estou saindo da cidade Saint-Jean-Pied-de-Port na França. Andei cerca de uns quinhentos metros a partir do portão medieval e uma muralha, que marca o limite urbano da cidade. Aqui começo a enfrentar uma subida que, por mais que eu tivesse lido a respeito eu não imaginei que fosse tão forte. A estrada, muito antiga, é de piso de terra e muito íngreme.
Esse começo está mais complicado do que eu pensei. Já andei cerca de uma hora e subi bastante. Nesse trecho, uma estradinha de uns três metros de largura, pavimentada por um asfalto precário, com muitas curvas e, até agora, nenhuma seta amarela pra me indicar se estou no caminho certo. As tradicionais setas amarelas são as marcas que, desde tempos ancestrais, são colocadas para orientar os peregrinos e indicar a trilha. Mas, até agora, nenhuma...
Ao lado da estradinha havia uma espécie de serraria ou marcenaria. Entrei pra pedir informações, mas não havia ninguém. As ferramentas todas em cima das mesas e nem uma viva alma. Chamei, gritei, mas ninguém apareceu. Há alguns minutos eu avistei uma pessoa usando cajado, que parece que subia nessa mesma direção. Então, o melhor a fazer é continuar subindo.

Três ou quatro quilômetros mais adiante, depois de uma curva da subida, enxerguei dois Peregrinos, com mochila nas costas e cajado na mão. Fiquei mais aliviado. Certamente o caminho é este e, assim, dá pra apreciar melhor os detalhes da viagem. Ao passar do lado de uma fazendinha de gado, eu reparava a grande diferença das características geográficas entre essa região e a região de Madrid. Lá é extremamente seco e plano. Aqui, apesar de muito montanhoso, a pastagem é verde e muito bonita. Havia cerca de doze vacas, aparentemente da raça Caracu, com pelagem avermelhada, algumas com pintas brancas, muito bonitas e gordas, pastando com gosto.
A casinha era pequena, bem antiga, mas dava a impressão de ser um sítio muito bem cuidado. Bem do lado, numa pequena horta, estava o fazendeiro, aparentemente arrancando umas batatas. Era um sujeito tipicamente europeu, de olhos muito azuis, magro e de rosto fino. Arrisquei um “Bonjour”, que ele respondeu sem muito entusiasmo. Aproximei um pouco mais e, mostrando o cantil, pronunciei “água” em francês, quando um senhor mais velho, saindo da casa, me fez um sinal e eu o segui. Muito solícito, ele me mostrou um tanque com uma torneira aberta. Tomei uma boa golada na palma da mão e, enquanto enchia ao cantil, comentei, em Espanhol, que vinha do Brasil e mostrei a nossa bandeira na minha sacola tipo embornal, mas ele não entendeu nada. Tentei pronunciar “Brasil” numa espécie de sotaque francês imaginário e ele começou a rir, fazendo gestos que indicavam ser muito longe e balançava a cabeça dizendo “no hablo español”. Deve pensar que no Brasil se fala espanhol. Agradeci com um toque no ombro e segui em frente.
Há cerca de duas horas que venho subindo Serra e o tempo continua bastante nublado, desde a hora que saí de Saint-Jean. A estradinha estreita de asfalto faz zigue-zague – pra amenizar a inclinação. Logo adiante ao trilha entra no meio de um bosque, onde as copas das árvores fecham totalmente por cima.
As pessoas que eu havia visto à minha frente desapareceram. Ou são muito rápidos ou saíram da estrada em alguma capoeira atrás, o que é mais provável, pois eu ando bastante rápido e deveria tê-los alcançado. Só não me sinto inseguro novamente porque avistei, bem atrás, numa curva a uns três quilômetros, um casal que vem subindo na mesma trilha que eu. Isso indica que eu estou no caminho certo e que não estou sozinho nesse mundão.
A trilha continua cada vez mais íngreme e eu nem sei quanto eu já subi. Daqui de cima pode-se avistar todo o vale onde está localizada a cidade de Saint-Jean. Acima, e pelas laterais, vislumbra-se o perfil da majestosa cordilheira dos Pirineus, a perder de vista, tanto para os lados, quanto apara cima, onde se perde de vista na neblina. O vale visto daqui é maravilhoso. Acabei tirr umas fotos pra guardar essa imagem. Contudo, olhar pra frente está me causando uma certa apreensão, pois as subidas parecem não ter fim. Quanto mais se sobe, mais se descortinam novos picos adiante.
Logo atrás, passei por três espanhóis, um senhor e duas mulheres. Caminhei com eles um pouco e parei pra bater novas fotos, deixando eles subirem na frente. Um pouco mais adiante, encontrei uma fonte pra abastecer o cantil e dar uma molhada na cabeça. Apesar da temperatura bastante baixa, eu estava totalmente encharcado de suor, da cabeça aos pés.
Uma hora da tarde no meu relógio – são oito da manhã no Brasil. Margeando um pico pela lateral, acaba de descortinar à frente outro conjunto de montanhas, aparentemente ainda mais íngreme, constituído de pedras gigantes, ao contrário do se viu nos trechos que passei abaixo, onde havia pastagens nas encostas. Aqui é deserto, com pedras e restingas de mata nas partes mais baixos. Acredito que a fronteira com a Espanha pode estar perto, mas não dá pra enxergar, por causa da neblina. O tempo está bastante fechado, especialmente nos topos de montanhas acima, o que indica risco de chuva.
...

Santiago - Prefácio: A Preparação


Hoje é 20 de julho, sexta feira. São 14:15hs da tarde e eu estou começando uma série de gravações para registrar minha viagem a Santiago de Compostela, na Espanha. Ainda faltam doze dias para a minha partida, mas eu resolvi fazer um primeiro teste com o equipamento e utensílios que eu vou usar na viagem. Eu comprei ontem a mochila, o saco de dormir, a capa, o cantil, a tralha toda que eu vou precisar na viagem, coloquei mais ou menos o equipamento recomendado para a viagem e hoje vou fazer o teste.
Sai de Brasília, da Quadra 116 Sul eu já estou caminhando há mais ou menos a 20 minutos, rumo à cidade de Brazlândia, que fica a cerca de 47 km daqui, que equivale a alguns dos trechos que se costuma fazer no Caminho de Santiago. Se eu conseguir chegar bem, isso quer dizer que estou pronto pra pegar a estrada na Espanha. Mas, caso eu tenha algum problema, de onde estiver eu ligo pro Valério me resgatar.
Hoje o Valério e o Alexandre Pintassilgo vão cantar na Pamonharia Mineira, que fica na chegada de Brazlândia e, segundo os meus cálculos, eu devo chegar por lá a tempo de tomar um banho, trocar de roupa – que estou levando aqui na mochila - e ir lá para a Pamonharia Mineira ver o show.
A minha expectativa é que eu consiga fazer bem, tanto esse treino de hoje pra Brazlândia, quanto o caminho de Santiago durante os 30, 35 ou 38 dias que eu devo gastar por lá. Para isso eu venho treinando, fazendo minhas corridas mais intensamente, numa média de três por semana, correndo entre oito e doze km, ao longo de pelo menos seis meses. Nas minhas viagens a trabalho, sempre tiro um dia pra fazer pelo menos uma corrida antes das reuniões de trabalho, mesmo que eu tenha que levantar de madrugada e perder o café da manhã no hotel. Nas últimas semanas, corri no Rio de Janeiro, em Fortaleza, Boa Vista e Porto Alegre. É bom que a gente vai experimentando climas, temperaturas e nível de oxigênio diferentes.
Com isso, eu creio que esteja com um bom preparo físico. Ainda conta a minha experiência de caminhada de Carmo do Paranaíba à cidade de Romaria, também conhecida como Água Suja, no Triângulo Mineiro, que eu fiz há cerca de um ano, em agosto passado. Lá são 200 km de caminhada, que eu fiz em seis dias. Aliás, eu já tinha feito por outras duas vezes antes. A grande diferença entre Santiago e Romaria é que, na peregrinação a Santiago, além de ser uma distância quatro vezes maior, você tem que levar tudo o que precisa na mochila. Já em Minas, por tradição, há o pessoal de apoio. Quando se chega no acampamento, já está tudo prontinho: barraca armada, comida pronta, jeito pra tomar banho, etc.
São 4 horas da tarde e estou andando há mais de duas. Meio decepcionado porque imaginei que estivesse ido mais longe com esse tempo. O sol está muito quente e, por isso, tentei não puxar muito o ritmo no início para não estressar. Mas essa hora de caminhada foi o suficiente pra fazer algumas constatações. Primeiro, é que a bota, aparentemente, é muito confortável! Não sinto nenhum desconforto em lugar nenhum do pé. Porém, a mochila, é bem provável que vá incomodar um pouco no ombro, onde se apoia a alça. Mas pode ser também que seja uma questão de me acostumar com ela.
Outra constatação é que eu o colete de pescador é um equipamento extremamente importante. Quando parei pra tomar água de coco, ali atrás, vi o quanto é prático, devido à quantidade de bolsos que ele tem. Não daria pra pegar o dinheiro, pagar, colocar a água de coco no cantil, e tantos outros movimentos, se não tivesse onde colocar o gravador, o tripé da máquina fotográfica e o canivete, por exemplo. Sem o colete com seus bolsos, seria um drama. Dá até para abrir e tirar essas coisas da mochila mas, depois, pra colocar de novo e fechar é muito complicado, muito trabalhoso. Então o colete evita isso e deixa as coisas mais necessárias bem a mão.
A propósito, por falar em água de coco, lembrei-me que este é um luxo que certamente não terei na Espanha. Rapidamente, por três Reais eu tomei uma água super gelada e despejei o conteúdo de outros três cocos no cantil. Uma delícia! Vou sentir falta disso.
Estou tomando o sol das quatro horas da tarde bem na cara! Puxei a aba do boné pra diminuir o desconforto e proteger o nariz. Me bateu um certo desânimo por causa disso. Não creio que seja cansaço físico. Mas, se por acaso o cansaço bater e eu não conseguir chegar a Brazlândia como eu esperava, pelo menos acho que vou ter uma desculpa: é que essa noite passada eu tive um sono curto. Dormi muito pouco. Talvez por ter ficado pensado muito na viagem, depois de ter comprado o equipamento ontem, a mochila ali, do lado ali da cama! Eu olhava pra mochila, ela olhava pra mim... Ontem à noite eu coloquei tudo o que era necessário dentro dela e me pareceu meio pesada demais. E, além disso, tenho ficado meio ansioso nos últimos dias, por causa disso tudo - expectativa da viagem, pensando no teste de hoje...
São 5:10 da tarde e estou com cerca de três horas e meia de caminhada. A sensação é de que está rendando pouco. Queria ter andado mais. Nos últimos minutos senti alguns sinais de cansaço verdadeiro. A parte posterior da perna - panturrilha, desde a curva até o calcanhar, está ficando muito sensível. Talvez amanhã eu amanheça com isso tudo dolorido.
Há cerca de meia hora atrás eu passei por outro vendedor de coco, e resolvi aproveitar mais uma vez desse privilegio que, com certeza, não vou ter lá na Espanha, enquanto estiver fazendo o Caminho de Santiago. Enchi de novo o cantil, tomei mais um coco bem gelado, muito doce, que nem uma garapa. Quando comentei com o vendedor que estava amaciando as botas e experimentando o equipamento pra fazer a viagem a Santiago, ele se emocionou. Perguntou se se eu já tinha feito isso, disse que era uma coisa que já ouviu falar e que já havia lido a respeito e achou muito interessante. Ficou tão emocionado que me deu um coco a mais de brinde.
Pouco antes de chegar nessa barraquinha de coco, peguei uma vareta caída, que era usada para proteger um canteiro da avenida, aparei bem as pontas e saliências com meu canivete. Na barraca de coco, passei uma água pra tirar a fuligem e venho usando ela como cajado. É muito bom pra dar mais equilíbrio enquanto a gente anda e parece distribui o peso, aliviando as pernas.
São 5:40 hs da tarde. Estou saindo da área urbana de Taguatinga pra pegar a estrada de Brazlândia, com o sol ainda bem forte, diretamente no rosto. Daqui pra frente eu vou tentar me esforçar um pouco mais no ritmo de caminhada, pois o espaço mais livre da estrada vai me permitir uma caminhada contínua, sem interrupções.
Logo ali atrás, cruzei com uma mulher bem velhinha e com uma disposição danada pra andar. Usando um vestidão comprido, um pano amarrado na cabeça, um rosto bastante enrugado, aparentando ter cerca de 70 anos de idade. A fisionomia dela me lembrou muito a Narcisa, uma senhora que vivia na Fazenda Barreiro. Fiquei observando de longe e reparando que ela tinha um cacoete: ela pisca e balança a cabeça, pisca e balança a cabeça. Achei bem engraçado, uma figura bem exótica.
São 6:15 hs da tarde. Já é praticamente noite e por aqui é um trecho sem nenhuma urbanização, com Cerrado do lado e as as árvores da Floresta Nacional de Brasília logo ali, a uns cem metros da estrada. A alguns metros atrás uma senhora parou o carro no acostamento e desceu pra falar comigo. Era bem vestida, com um cinto largo, sapatos bons e estava acompanhada por uma garota adolescente negra – aparentemente uma ajudante dela. Me lembrou a mulher do Ronaldo Honório. Disse que me viu caminhando ainda em Taguatinga, quando vinha no sentido contrário, há algumas horas atrás e que foi até próximo de Brazlândia, voltou e se surpreendeu por me ver ainda andando pela estrada. Toda curiosa, veio me perguntar o que eu estava fazendo, andando tanto pela estrada. Expliquei que pretendia ir até Brazlândia. Ela recomendou que não andasse muito durante a noite, pois essa região pode ser perigosa. Mas eu disse que ia andar mais ou menos uns quarenta minutos e que ia chamar meu irmão pra me resgatar, dali a pouco e ela foi embora.
São sete horas da noite. São cerca de cinco horas e meia de caminhada e já é noite, com tudo totalmente escuro, à exceção dos faróis dos carros que passam por aqui. Acabei de tirar a lanterna da mochila e pendurei na alça da própria mochila, bem aqui na frente. Liguei pro Valério lá em Brazlândia, mas ele disse que ainda está na casa do Nenem, que deve emprestar os equipamentos de som para o show na Pamonharia. Disse que atrasou e que ele vai esperar mais um pouco pra ver se ainda haveria tempo pra instalar o equipamento.
São oito horas da noite, mais de seis horas de caminhada. O Valério acabou de me ligar dizendo que vem me pegar. Estou começando a descida para o trevo de Brazlândia. A mochila cheia nas costas, mas aparentemente parece que está tudo bem. Não tenho sinais de cansaço preocupantes. A noite escura, a estrada que liga Brasília a Brazlândia não me proporciona sensação de segurança – tudo muito ermo por aqui, apesar do tráfego de veículos muito intenso agora, nos dois sentidos –m noite de sexta feira por aqui é sempre assim.
Há cerca de duas horas atrás liguei para minhas filhas, que estão em viagem pra Carmo do Paranaíba. Falei com a Camila, que disse estar tudo bem. Aparentemente está felizinha. Quando ligo e sinto que estão bem, me sinto melhor. Não consegui falar com a Cintia, mas a Camila disse que está bem, num barzinho com uns amigos, muito comportadinha, toda bonitinha.
Essa caminhada solitária foi uma boa oportunidade de reflexão! Além de constatar que estou em ponto de bala para encarar o Caminho de Santiago, também me propiciou momentos de introspecção. Dá pra imaginar bem, com base nessa experiência, como será naqueles trechos desertos, de matas, aquelas trilhas medievais, longe da urbanização... Estou bastante entusiasmado e espero que seja uma viagem proveitosa. Espanha, me aguarde.
CAPÍTULO I - De Saint-Jean-Pied-Port a Roncesavalles

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Rascunho


INTRODUÇAO: o Treino
Hoje é 20 de julho de 2001, sexta feira. São 15:15hs da tarde e eu estou começando uma série de gravações para registrar minha viagem a Santiago de Compostela, na Espanha. Ainda faltam doze dias para a minha partida, mas eu resolvi fazer um primeiro teste com o equipamento e utensílios que eu vou usar na viagem. Eu comprei ontem a mochila, o saco de dormir, a capa, o cantil, a tralha toda que eu vou precisar na viagem, coloquei mais ou menos o equipamento recomendado para a viagem e hoje vou fazer o teste.
Sai de Brasília, da Quadra 116 Sul eu já estou caminhando há mais ou menos a 20 minutos, rumo à cidade de Brazlândia, que fica a cerca de 47 km daqui, que equivale a alguns dos trechos que se costuma fazer no Caminho de Santiago. Se eu conseguir chegar bem, isso quer dizer que estou pronto pra pegar a estrada na Espanha. Mas, caso eu tenha algum problema, de onde estiver eu ligo pro Valério me resgatar.
Hoje o Valério e o Alexandre Pintassilgo vão cantar na Pamonharia Mineira, que fica na chegada de Brazlândia e, segundo os meus cálculos, eu devo chegar por lá a tempo de tomar um banho, trocar de roupa – que estou levando aqui na mochila - e ir lá para a Pamonharia Mineira ver o show.
A minha expectativa é que eu consiga fazer bem, tanto esse treino de hoje pra Brazlândia, quanto o caminho de Santiago durante os 30, 35 ou 38 dias que eu devo gastar por lá. Para isso eu venho treinando, fazendo minhas corridas mais intensamente, numa média de três por semana, correndo entre oito e doze km, ao longo de pelo menos seis meses. Nas minhas viagens a trabalho, sempre tiro um dia pra fazer pelo menos uma corrida antes das reuniões de trabalho, mesmo que eu tenha que levantar de madrugada e perder o café da manhã no hotel. Nas últimas semanas, corri no Rio de Janeiro, em Fortaleza, Boa Vista e Porto Alegre. É bom que a gente vai experimentando climas, temperaturas e nível de oxigênio diferentes.
Com isso, eu creio que esteja com um bom preparo físico. Ainda conta a minha experiência de caminhada de Carmo do Paranaíba à cidade de Romaria, também conhecida como Água Suja, no Triângulo Mineiro, que eu fiz há cerca de um ano, em Agosto passado. Lá são 200 km de caminhada, que eu fiz em seis dias. Aliás, eu já tinha feito por outras duas vezes antes. A grande diferença entre Santiago e Romaria é que, na peregrinação a Santiago, além de ser uma distância quatro vezes maior, você tem que levar tudo o que precisa na mochila. Já em Minas, por tradição, há o pessoal de apoio. Quando se chega no acampamento, já está tudo prontinho: barraca armada, comida pronta, jeito pra tomar banho, etc.
São 4 horas da tarde e estou andando há uma hora e pouco. Meio decepcionado porque imaginei que estivesse ido mais longe com esse tempo. O sol está muito quente e, por isso, tentei não puxar muito o ritmo no início para não estressar. Mas essa hora de caminhada foi o suficiente pra fazer algumas constatações. Primeiro, é que a bota, aparentemente, é muito confortável! Não sinto nenhum desconforto em lugar nenhum do pé. Porém, a mochila, é bem provável que vá incomodar um pouco no ombro, onde se apoia a alça. Mas pode ser também que seja uma questão de me acostumar com ela.
Outra constatação é que eu o colete de pescador é um equipamento extremamente importante. Quando parei pra tomar água de coco, ali atrás, vi o quanto é prático, devido à quantidade de bolsos que ele tem. Não daria pra pegar o dinheiro, pagar, colocar a água de coco no cantil, e tantos outros movimentos, se não tivesse onde colocar o gravador, o tripé da máquina fotográfica e o canivete, por exemplo. Sem o colete com seus bolsos, seria um drama. Dá até para abrir e tirar essas coisas da mochila mas, depois, pra colocar de novo e fechar é muito complicado, muito trabalhoso. Então o colete evita isso e deixa as coisas mais necessárias bem a mão.
A propósito, por falar em água de coco, lembrei-me que este é um luxo que certamente não terei na Espanha. Rapidamente, por três Reais eu tomei uma água super gelada e despejei o conteúdo de outros três cocos no cantil. Uma delícia! Vou sentir falta disso.
Estou tomando o sol das quatro horas da tarde bem na cara! Puxei a aba do boné pra diminuir o desconforto e proteger o nariz. Me bateu um certo desânimo por causa disso. Não creio que seja cansaço físico. Mas, se por acaso o cansaço bater e eu não conseguir chegar a Brazlândia como eu esperava, pelo menos acho que vou ter uma desculpa: é que essa noite passada eu tive um sono curto. Dormi muito pouco. Talvez por ter ficado pensado muito na viagem, depois de ter comprado o equipamento ontem, a mochila ali, do lado ali da cama! Eu olhava pra mochila, ela olhava pra mim... Ontem à noite eu coloquei tudo o que era necessário dentro dela e me pareceu meio pesada demais. E, além disso, tenho ficado meio ansioso nos últimos dias, por causa disso tudo - expectativa da viagem, pensando no teste de hoje...
São 5:10 da tarde e estou com cerca de duas horas e meia de caminhada. A sensação é de que está rendando pouco. Queria ter andado mais. Nos últimos minutos senti alguns sinais de cansaço verdadeiro. A parte posterior da perna - panturrilha, desde a curva até o calcanhar, está ficando muito sensível. Talvez amanhã eu amanheça com isso tudo dolorido.
Há cerca de meia hora atrás eu passei por outro vendedor de coco, e resolvi aproveitar mais uma vez desse privilegio que, com certeza, não vou ter lá na Espanha, enquanto estiver fazendo o Caminho de Santiago. Enchi de novo o cantil, tomei mais um coco bem gelado, muito doce, que nem uma garapa. Quando comentei com o vendedor que estava amaciando as botas e experimentando o equipamento pra fazer a viagem a Santiago, ele se emocionou. Perguntou se se eu já tinha feito isso, disse que era uma coisa que já ouviu falar e que já havia lido a respeito e achou muito interessante. Ficou tão emocionado que me deu um coco a mais de brinde.
Pouco antes de chegar nessa barraquinha de coco, peguei uma vareta caída, que era usada para proteger um canteiro da avenida, aparei bem as pontas e saliências com meu canivete. Na barraca de coco, passei uma água pra tirar a fuligem e venho usando ela como cajado. É muito bom pra dar mais equilíbrio enquanto a gente anda e parece distribui o peso, aliviando as pernas.
São 5:40 hs da tarde. Estou saindo da área urbana de Taguatinga pra pegar a estrada de Brazlândia, com o sol ainda bem forte, diretamente no rosto. Daqui pra frente eu vou tentar me esforçar um pouco mais no ritmo de caminhada, pois o espaço mais livre da estrada vai me permitir uma caminhada contínua, sem interrupções.
Logo ali atrás, cruzei com uma mulher ali atrás, bem velhinha, mas com uma disposição danada pra andar. Usando um vestidão comprido, um pano amarrado na cabeça, um rosto bastante enrugado, aparentando ter próximo de 70 anos de idade. A fisionomia dela me lembrou muito a Narcisa, uma senhora que vivia na Fazenda Barreiro. Fiquei observando de longe e reparando que ela tinha um cacoete: ela pisca e balança a cabeça, pisca e balança a cabeça. Achei bem engraçado, uma figura bem exótica.
São 6:15 hs da tarde. Já é praticamente noite e por aqui é um trecho sem nenhuma urbanização, com Cerrado do lado e as as árvores da Floresta Nacional de Brasília logo ali, a uns cem metros da estrada. A alguns metros atrás uma senhora parou o carro no acostamento e desceu pra falar comigo. Era bem vestida, com um cinto largo, sapatos bons e estava acompanhada por uma garota adolescente negra – aparentemente uma ajudante dela. Me lembrou a mulher do Ronaldo Honório. Disse que me viu caminhando ainda em Taguatinga, quando vinha no sentido contrário, há algumas horas atrás e que foi até próximo de Brazlândia, voltou e se surpreendeu por me ver ainda andando pela estrada. Toda curiosa, veio me perguntar o que eu estava fazendo, andando tanto pela estrada. Expliquei que pretendia ir até Brazlândia. Ela recomendou que não andasse muito durante a noite, pois essa região pode ser perigosa. Mas eu disse que ia andar mais ou menos uns quarenta minutos e que ia chamar meu irmão pra me resgatar, dali a pouco e ela foi embora.
São sete horas da noite. São quase quatro horas e meia de caminhada e já é noite, com tudo totalmente escuro, à exceção dos faróis dos carros que passam por aqui. Acabei de tirar a lanterna da mochila e pendurei na alça da própria mochila, bem aqui na frente. Liguei pro Valério lá em Brazlândia, mas ele disse que ainda está na casa do Nenem, que deve emprestar os equipamentos de som para o show na Pamonharia. Disse que atrasou e que ele vai esperar mais um pouco pra ver se ainda haveria tempo pra instalar o equipamento.
São oito horas da noite, mais de cinco horas de caminhada. O Valerio acabou de me ligar dizendo que vem me pegar. Estou começando a descida para o trevo de Brazlândia. A mochila cheia nas costas, mas aparentemente parece que está tudo bem. Não tenho sinais de cansaço preocupantes. A noite escura, a estrada que liga Brasília a Brazlândia não me proporciona sensação de segurança – tudo muito ermo por aqui, apesar do tráfego de veículos muito intenso agora, nos dois sentidos –m noite de sexta feira por aqui é sempre assim.
Há cerca de duas horas atrás liguei para minhas filhas, que estão em viagem pra Carmo do Paranaíba. Falei com a Camila, que disse estar tudo bem. Aparentemente está felizinha. Quando ligo e sinto que estão bem, me sinto melhor. Não consegui falar com a Cintia, mas a Camila disse que está bem, num barzinho com uns amigos, muito comportadinha, toda bonitinha.
Essa caminhada solitária foi uma boa oportunidade de reflexão! Além de constatar que estou em ponto de bala para encarar o Caminho de Santiago, também me propiciou momentos de introspecção. Dá pra imaginar bem, com base nessa experiência, como será naqueles trechos desertos, de matas, aquelas trilhas medievais, longe da urbanização... Estou bastante entusiasmado e espero que seja uma viagem proveitosa. Espanha, me aguarde.



CAP. 1: Saint Jean Pied Port a ...
Hoje são 4 de agosto, 6:35 da manhã. Estou saindo da cidade de Saint Jean Pied Port, na França, começando a minha aventura rumo a Santiago de Compostela, com cerca de 830 km pela frente, que eu pretendo vencer a pé.
À minha frente a famosa Cordilheira dos Pirineus, um ermo de montanhas sucessivas que parecem não ter fim, nem em distância nem em altitude. Atrás de mim, a pequena Cidade francesa fundada na Idade Média. Apesar de muito bem limpinha e conservada, alguns prédios e pontes indicam que esta cidade deve ter mais de mil anos.
Ontem à noite, quando eu cheguei em Saint Jean, todos os refúgios e albergues de peregrinos já estavam fechados. Procurei também pelo escritório dos Associados do Caminho de Santiago para carimbar o meu passaporte Peregrino mas, como era mais de 10 horas da noite, estava fechado também.
Fiquei saracoteando pela rua para ver se encontrava alguém para me dar uma informação e também para arranjar alguma coisa para comer e, principalmente, um lugar pra dormir. Só encontrei uma espécie de trailler de lanches onde haviam rapazes bebendo e conversando. Tentei pedir informação, mas nenhum deles falava espanhol nem inglês e muito menos português. Eu desisti e saí meio enfezado, sem dar muita satisfação. Dizem que os franceses são assim: saem sem nem abanar o rabo. Então, eu devo ter saído à Francesa.
Eu já estava meio desesperado. Muito cansado, depois da maratona de quase 20 horas de viagem do Brasil até Madrid e depois da loucura para conseguir chegar a Pamplona e, ainda, da dificuldade para arranjar um taxi que me trouxesse até aqui.
Quando eu descia de volta a mesma rua que eu havia subido até o final da cidade, vi uma senhora, bem velhinha na janela de um casarão. Tentei conversar com ela e pedir informações e, apesar dela não ter entendido nada do que eu falei, pelo menos entendeu do que eu precisava. Desceu do primeiro andar, abriu a porta, apenas com gesto me chamou pra dentro, mostrou um quartinho, onde havia duas camas de campanha, dessa dobráveis. Apontou pra cama e, assim, deu pra entender que ela me daria pouso ali.
Era um casarão que não tinha menos que uns 200 anos de construção, com cheiro de mofo, apesar de estar aparentemente bem limpo. A iluminação muito fraca, mal dava para ver que a estrutura da casa era toda em madeira, inclusive o piso de assoalho, que rangia quando a gente andava.
Tentei conversar, perguntar se havia algum lanche e saber se ali era uma espécie de albergue ou pensionato, mas ninguém entendia nada. Nem eu nem ela. Ela também não falava nem inglês nem espanhol.
Daí, ela foi numa cristaleira antiga e pegou um pedaço de papel e uma caneta que escreveu e me mostrou. Eu olhei aquilo e achei que ela tivesse escrito o número 50 e deduzi que a velha estava me apresentando a conta, para pagamento do pernoite adiantado. Fui na mochila e comecei a vasculhar o dinheiro pensando se ela aceitaria pesetas ou dólar, pois eu nem sequer sabia qual era a moeda francesa. Peguei algumas notas e pus na mesa para ela me ajudar a separar o valor devido.
Mas a senhora começou a rir e eu desconfiei que estava cometendo alguma gafe. Com muita dificuldade, entendi que aquilo que ela havia escrito não era o número 50. Era o nome dela: JÔ. A letra J escrita por no papelzinho era exatamente igual ao número 5.
Já que eu estava com o dinheiro na mão e muito cansado de tanto tentar falar em outras línguas que eu nem sabia direito, pedi a ela pra aproveitar e já deixássemos pago.
Ela, vendo que eu tinha pesetas espanholas, fez uma continha e me mostrou que o valor seria mil e duzentos e pouco Pesetas, algo em torno de uns 15 reais."




sexta-feira, 5 de maio de 2017

O diálogo da arrogância contra o sofrimento alheio

Udalia Nucrécia:
- Amadeu, deixe de ser ignorante! Nada no mundo é pior que doença!!!! Por favor!!! Deixa de se fazer de vítima!! Tudo na vida são consequências!!! Inclusive a doença!!!!

Amadeu Vitorino:
- Udalia, mais uma vez você se equivoca. Jamais você me viu e nunca vai me ver assumindo a condição de vítima!
Pelo contrário, eu costumo ser protagonista e sair na frente. Quando vocês ficam sabendo dos problemas, eu já os resolvi.
Não se iluda também, pensando que "nada é pior que a doença". Há sim, coisas na vida bem por que a doença. E ao contrário do que você diz, a doença geralmente é causa e não consequência.
A doença pode ser um desafio, uma pausa forçada por Deus para que a pessoa reflita. Pode ser uma oportunidade para que as pessoas (doentes e familiares) possam reavaliar eventuais erros e se redimir perante Deus, enquanto buscam a cura.
Já a morte é definitiva! É a sentença final condenatória. Ainda que o condenado, muitas vezes, seja quem fica vivo, pra que este aprenda a entender o valor que as pessoas têm e, assim, pare de provocar, de implicar, de fofocar e prejudicar os outros. Para que deixe de contribuir para sacrificar filhos alheios, sob o disfarce da pseudo proteção, fazendo de conta que está ajudando, enquanto apunhala pelas costas.
Eu só te pedi pra você não agir assim, porque dessa forma você não está sendo compreensiva diante dos meus problemas. Parece até que você quer ser a campeã! Parece que quer que os seus problemas sejam os mais importantes e mais merecedores da atenção dos outros. Mas isso não é bom! Problemas pessoais não podem ser objeto de competição, pra ver quem tem o maior. Assim, você vai atrair pra si cada vez mais problemas mais graves, na ilusão de que a solidariedade e o afeto dos outros compense isso.
Me acusar de estar me "fazendo de vítima" é só uma tática que você adota para desqualificar e fazer pouco caso dos problemas pelos quais os meus filhos passam e, assim, se manter na frente, merecendo mais atenção dos outros.

Interessante! Há anos eu compartilho essas situações com, no mínimo, 1.800 pessoas, por outros canais. No entanto, só aqui eu encontro esse tipo de "combate" e de tentativa de inverter a responsabilidade. Por que será?

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Como um rio

Eu sou desses rios teimosos, esperneantes!...
Sabe por que? Porque eu fico insistindo em fazer as coisas darem certo e em conquistar aquilo que acho que consigo e mereço. Mesmo quando não dá nada certo, eu teimo, começo de novo...
Eu também tenho a mania de me orgulhar das minhas conquistas, de mostrar o que eu sei fazer de bom, de mostrar e exibir os meus filhos, os meus amigos, enfim, de mostrar as coisas boas que eu sei, que eu sou e que eu faço. 

Sabe por que? Porque eu tenho orgulho dessas coisas e porque eu acho que as pessoas que eu amo merecem ver. Todo mundo gosta de ver coisas boas.
Cada um pode escolher entre conquistar o ostracismo e o esquecimento ou conquistar o sucesso. Eu escolhi esta última alternativa, mesmo sabendo que esta exige muita coragem e requer habilidades, mesmo sabendo que eu não tenho muitas habilidades.
Eu acredito que quem faz opção por conquistar o sucesso, ainda que nunca consiga plenamente, se sente mais realizado na vida. Sucesso é o reconhecimento, a valorização, o aplauso, o prestígio, o carinho de quem gosta do que a gente faz, do que a gente é.
Mas eu sabia desde o começo que, para conseguir algum êxito nesse caminho escolhido, tem-se que saber fazer coisas bacanas, divertidas, curiosas, interessantes. Isso não é fácil! A vantagem é que, quando se sabe fazer coisas assim, costuma-se dizer que a pessoa domina a arte de viver, que é um artista da vida. São aqueles popularmente chamadas de PESSOAS QUE SABEM VIVER! É por isso que acho que essas pessoas devem mostrar o que sabem fazer, pois o que é bom deve ser mostrado, o que é bom é pra ser visto...
Quem não quer conquistar o sucesso? Há quem diga que não! Mas, particularmente, eu acredito que a maioria, na verdade, diz isso como forma de camuflar alguma frustração, uma espécie de disfarce, tipo homem muito feio dizendo que não namora porque não suporta as garotas, tipo a raposa dizendo que não gosta de uvas (lembram da parábola?).
Convenhamos! Afinal, ter o valor, o reconhecimento, o prestígio e o carinho das pessoas é muito bom! O contrário disso deve ser terrível.
Eu não sei fazer quase nada bacana, divertido, curioso ou interessante. Mas o pouquinho que eu sei, acho que vale a pena mostrar. Uns gostam, outros não. Há também uns que gostam, mas fingem que não. Mas tudo bem. Eu terei feito a minha parte. E como tudo o que eu faço, faço bem feito, ainda que não tenha agradado um ou outro, isso já me faz sentir muito bem.
Se, pelo contrário, eu tivesse optado pelo ostracismo, certamente eu seria triste, deprimido. Talvez eu fosse um ermitão, um hippie, um andarilho, até mesmo um alcoólatra, pois tudo o que eu faço, faço bem feito. Mas, nesse caso, eu não seria feliz.
Por outro lado, eu gosto de saber das pessoas que eu amo, que eu admiro, enfim, de todo mundo que sabe fazer coisas bacanas, divertidas, curiosas, interessantes. Não só por causa dessas coisas que elas fazem, mas também porque pessoas assim me atraem, as vezes me cativam e até me deixam fascinados. Por isso eu os acompanho, gosto de saber deles, de ter notícias e vivo torcendo para que eles tenham cada vez mais sucesso, mais seguidores, mais admiradores.
Eu sou assim com o Paul McCartney, com o Roberto Carlos, com o Elvis Presley, com os meus filhos, com a Samara, com meus sobrinhos, meus irmãos, meus cunhados, meus primos, meus amigos todos. Eu sou a plateia deles, porque eu sei que isso faz bem pra eles. Da mesma forma eu quero conquistar alguma plateia, nem que seja de uma pessoa só, porque isso me faz bem também.
Eu gosto também de falar pros meus amigos sobre os meus tombos, meus fracassos e minhas frustrações. Não porque eu acho que isso os agrada, mas porque me faz bem e me alivia dividir o sofrimento, as provações e os revezes da vida e, também, porque as pessoas que me amam se sentirão honrados pela confiança depositada, além de, muitas vezes, me ajudarem a superar. 

sábado, 25 de junho de 2016

Feliz Aniversário, Giovana

Eu sempre quis ser o melhor pai do mundo pra você. Não sei se consegui. Mas quem vai dizer se eu fui ou se não fui, é você.
Se eu fui bom, não precisa falar isso pra mim. Se quiser, apenas comente com as outras pessoas e se orgulhe disso, pois foi você quem fez por merecer a minha dedicação e foi você quem fez o meu amor por você ser tão grande.
Também não precisa me agradecer. Agradeça apenas a Deus. Aproveita e agradeça também por mim, pois foi Ele que fez de mim um homem realizado na vida por ter sido seu pai.
No entanto, se eu não fui bom o bastante e se as minhas qualidades não foram suficientes para te proporcionar todo o amor que você merece, me diga o que faltou em mim! Me diga onde foi que eu errei. Eu preciso saber pra me corrigir, pra nunca mais errar de novo.
Porém, saiba que o que eu mais quis na vida foi ser bom o bastante pra você se orgulhar de mim, como eu me orgulhei do meu pai.
Saiba também que desde quando você era do tamanho da palma da minha mão, eu te admirava muito e já te achava grandiosa e linda.
Eu dizia para as pessoas: "Essa garotinha será pra sempre a minha princesa. Ela vai ser a melhor e mais linda garota do planeta". E você está crescendo linda, inteligente, carinhosa, divertida e me enche cada vez mais de orgulho.
Hoje você já está fazendo nove anos e te ver crescer assim foi um dos meus maiores privilégios, a realização do meu melhor sonho.
Logo logo vai chegar a hora de você começar a ser adulta e conquistar o mundo. Eu sei que você vai conquistar.
Porém, em alguns momentos do percurso da sua vida, você vai mudar e as coisas vão mudar também.
Você vai começar a sentir que o mundo e as pessoas já não são mais os mesmos de quando você era uma criancinha. Mas, apesar disso, nunca deixe de ser você. Lembre-se sempre do que você aprendeu quando ainda era bem pequena e dos exemplos de dentro de casa que te fizeram bem.
Não se conforme quando as pessoas disserem que você não é boa! Procure saber onde você errou, corrija e mostre que você é boa. Pois você é de verdade!
Algumas vezes as coisas vão ficar difíceis. Mas, nessas horas, não culpe o destino, nem a sorte, nem os fatos, muito menos as outras pessoas. Procure apenas descobrir onde você errou e corrija.
O mundo nem sempre é um parque de diversões colorido e iluminado, como eu gostaria que fosse pra você.
Às vezes ele se parece sujo, cruel e sombrio. E as pessoas, às vezes, não vão querer saber o quanto você é boa, bonita e inteligente. Vai aparecer alguém querendo te colocar pra baixo, querendo te ver derrotada.
E nessas horas, não vai aparecer ninguém vestido de anjo ou de super herói pra te dar a mão e te livrar de tudo.
E você vai sentir como se a vida batesse duro em você, sem que ninguém se importe com isso.
Mas, na verdade, isso é a vida nos ensinado. É a escola da vida. E às vezes parece que a gente está apanhando muito mais que merece. Entretanto, nessa hora, não importa o quanto a vida bate forte. Importa apenas o quanto a gente vai aguentar apanhar. Importa o quanto a gente resiste e o quanto a gente aprende dessa lição, pra continuar seguindo em frente. E é assim, tomando lições da vida, que se consegue vencer.
E nunca pense que seus valores bastam pra conquistar algo sem luta e sem competição! Não se iluda!A vida não te oferece nada de graça, na bandeja. Se alguma coisa vier assim pra você, desconfie, reavalie e recuse, se for o caso.
E, naquelas situações em que nada parece ter dado certo pra você, não vai adiantar você dizer que não conseguiu por causa disso ou daquilo. Não vai adiantar você dizer que falhou por causa de uma ou outra pessoa. Não! Só os covardes fazem isso. E você não é covarde.
A competência pra lutar é sua e, por isso, as falhas também serão suas e você tem que assumir. Só assim você vai entender e aprender a lição.
Eu sei que covardia e incompetência estão muito longe de você. Pelo contrário, você tem muita coragem e inteligência pra encarar as verdades e os problemas da vida com dignidade. Por isso você vai longe!
Você é melhor do que a grande maioria das pessoas. E você e eu sabemos disso! Mas nunca tente dizer pras pessoas o quanto você é boa. Falar não adianta, pois as palavras não servem pra isso. Apenas mostre, calada, o que você sabe e o que você pode fazer. E, assim, todos verão o seu valor.
Eu sempre te amei e vou continuar te amando acima de tudo, incondicionalmente, sem esperar nada em contrapartida, aconteça o que acontecer.
Você é meu sangue! É uma parte de mim - talvez a melhor das partes. É minha filha, a melhor coisa da minha vida!
Você não precisa acreditar nisso. Mas tem que acreditar em você mesma.Só assim você vai ter uma vida repleta de conquistas e de honras.
Depois, lá na frente, você vai entender que isso é o que vale a pena de verdade.
O resto são ilusões efêmeras, que passam e deixam de ter valor pra você muito antes do que você imagina.
Feliz Aniversário, minha princesinha, meu amorzinho!






quinta-feira, 17 de março de 2016

Saudades



Eu tenho amores, sem os quais eu não sei viver. 

É como se eu tivesse oito corações! 

Só que sete deles batem fora do meu peito. 

Cada vez que algum deles é retirado de mim, me vejo um pouco incapacitado, meio amputado. 
Eu só sei viver bem, se todos esses corações estiverem próximos de mim.
A distância e a falta do contato com eles me enfraquece, me adoece, pois a vida de verdade só acontece com eles à minha volta. 
Cada um tem funções vitais que sustentam a minha existência. 
Um deles apenas bate dentro do meu peito e confere se os outros estão perto e se estão bem. Só isso!... 
Os outros sete orbitam livres pela vida, muitas vezes sem saber o quanto são essenciais pra mim, o quanto eu preciso deles pra viver. 
Quando falta algum deles ao meu redor, o meu coração do peito sofre. E se faltam todos eles, não apenas sofre, mas ameaça me matar: Dá repiques doloridos e descompassados, me sufoca, aperta e estrangula minha alma, dá um nó na minha garganta e me cega olhos que enxergam as cores do mundo. 
Quatro deles são partes de mim que desgarraram e ganharam vidas próprias e que me enchem de orgulho. 
Destes quatro, dois ainda são botões desabrochando e preenchendo o meu mundo de alegrias e de novas esperanças. Mas ainda precisam de mim, do meu modelo, do meu exemplo, das minhas explicações e histórias que os fazem parar e refletir, assim como precisam das minhas presepadas que os fazem dar risadas. E eu também preciso deles, dos seus abraços, de ouvir as suas vozes e sentir suas presenças!... E preciso que eles precisem de mim, senão minha existência vai parecer em vão, vazia. 
Outros dois são lindos coraçõezinhos que povoaram de muitas alegrias um longo trecho da estrada da minha vida. Depois cresceram e deram pequenos frutos maravilhosos que trouxeram alegrias novas e que, de repente, fizeram o meu mundo tornar-se encantado. 
Mas há um destes corações que chegou do nada, como chegam os anjos e as fadas, e que alimenta os meus sonhos e os meus planos; me ensina a dar risadas, me mostra lindos horizontes azuis e me sustenta a alegria de viver. 
Este coração mudou a minha vida! Me trouxe alegria como eu não tinha há tempos e me ensinou de novo a sonhar, como eu já não mais sabia. 
Me deu tranquilidade pra dormir e, quando acordar antes da hora, dormir de novo, de um jeito que eu não conseguia. 
Me mostrou de perto o que é a paz e a doçura, que eu não conhecia. Me atribuiu valores, me dedicou respeito e me fez acreditar que eu sou capaz de renascer e de crescer de novo, quantas vezes for necessário. 
Enfim, me deu um gosto especial pela vida. 
Sem este coração, o meu coração do peito se desespedaça. Bate sem compasso e sem ritmo. Me tira o fôlego e me engasga. Torna-se um carrasco impiedoso de mim. 
Eu acho que, assim como eu, o meu coração do peito também não sabe mais viver sem ela.