segunda-feira, 17 de março de 2008

Quero meu Carmo de volta.


Crônica escrita por Geraldo Eustáquio Magela, em homenagem à cidade de Carmo do Paranaíba, MG.
Foto histórica da Antiga
Igreja de São Francisco,
em Carmo do Paranaíba, MG.


"Quero de volta os meus fantasmas
A mulher de 7 metros, a luzinha do cemitério, os enterros que pela minha porta passava me deixando sem dormir.
Quero meu medo de volta,
Passar para a cama da mãe, altas horas, sem acordar o pai.
Quero pescar piabas no límpido Corgo do Morro do Cemitério.
Busco na memória imagens perdidas
Onde estão as gabirobas atrás do cemitério? As mangabas, onde estão? A Fazenda do Faquinha? O poço do Nenen do Salate? As pitangas da Praça do Rosário?
O truco na casa do Toin Pavão com o meu parceiro Lôro.
O Pirulito da Avenida que a gente driblava em dias de jogo.
A fanfarra do Estadual com o Carneiro nervoso quando o Tiprijim tocava Lovanda Maria na corneta.
Cadê a Churrascaria Montilla da Dona Graciana, onde ensaiávamos os primeiros namoros e decepções.
Quero de volta o ônibus do Expresso de Luxo trazendo “os caras” de Patos prá gente bater.
Ai que saudade das brigas!!! não tinha intrigas..., só brigas.
Que o Hélio Mendes consiga bater no Amador Bomtempo.
Que o Seu Celso Resende dê o Miura pro Plinin parar de chorar.
Que a gente possa arrumar uma namorada pro Zezé do Zoró.
Que alguém dê uma surra no Batata!
Que o time do Barão ganhe da Avenida no sábado e do Niterói no domingo.
Que a Abadia do Bilú inicie outros tantos
Que o Paranaíba ganhe do Araxá e a Dona Zulmira do Pizadura dê uma ”sombrinhada” na cabeça do Juiz.
Que eu tire pelo menos um “6” na prova de matemática com o Zé Hugo.
Que o Belchior dê uma aula sem ressaca e o Bode (Lázaro Carneiro) não durma na sala.
Que eu tire zero na prova de música da Dona Conceição Boaventura só para ser solidário com o Armando do Vevêu.
Que eu grite bem alto “ João Pau de Bosta” no recreio sem ser expulso.
Quero beber para afogar as mágoas no Bar do Bechó e fazer serenata pras namoradas dos outros e pra Bolinha.
Quero beber cerveja gelada no Boca do Lobo.
Ah, os festivais!!! Evandro Fontes, Óh Mio Sgnore, acompanhar o Zé Maria Boca de cantor e a Cecília cantando Anõs, perseguir o Zé Gaspar, o Punga e outros desafinados........., Ah Festivais... Não quero mais!
Que o Humberto Veloso não capote o jipe na Serrinha.
Quero ouvir o Chico Mulato gritar “Zoró Puriiinho!!!!”
Eu também quero comprar votos na Lagoinha.
Que os Solitários toquem uma música sem o Hélio jogar o prato da bateria na cabeça do Puccini, que o Olavinho não desafine, que o sax do Carlos não guinche, o Serjão esqueça de casar e que eu possa ler meu gibí em paz.
Quero assistir um ensaio dos The Gorilas na casa do seu Álvaro, ouvir quem sabe o Dalton solar um Milionário ou uma música do The Venture.
Quero sentar na Pigalle com a Nonôra e a Vera Resende, e escrever versos sem rimas.
Quero tocar na Missa do Galo com o Frei Venâncio depois de tomar “todas” na Casa Paroquial tirando gosto com aparas de hóstia!
Sentar na Adega com a Zezé da Gráfica, Dr. Caio, Tião do Debrão e ouvir o violão do Carneirinho.
Quero ouvir o Mário Moreira na Integração, o Nestor narrando um Paranaíba X Bela Vista, e que o Paulinho do Miguilinho faça um gol! Pra quem? Adivinhe!!!!
Quero jogar sinuca com o Canhoto e o Direito e ganhar dos dois sem preconceitos!
Quero ouvir o Elisiário cantando na rodoviária por uma pratinha na latinha.
Quero ir ao Fórum ver o Dr. Barcelos enfrentar o Dr. Antônio Fubá sob o olhar do Dr Luiz Terra.
Quero tirar uma certidão de nascimento com o Bié Cardoso pra provar que sou de lá.
Quero ir à hora dançante no Clube Social prá ver o Lado do “Amerco” brigar com o Serraria
Quero carnaval no Bar do Flávio...., ao meio dia...., que folia!!!
Quero ver minha Santa Cruz desaprisionada da colônia penal. Que pecado capital!
Quero cortar o cabelo no João Barbeiro para ouvi-lo dizer que o João Carvalho vai candidatar de novo.
Quero ouvir o riso fácil da Branca da Daura ao descer da escola.
Falar pro Zé Maria Ferreira “a prova é do professor Aramízio! Prá que cola?”
Quero aprender datilografia na Escola da Dona Fia.
Quero ir pro Pé de Estribo pegar o ônibus pros Quintinos.
Quero ir prá Cachoeirinha no sábado prá ver o Evandro Fontes capotar o carro
No domingo pro Soares nadar na água fria, e pegar uma piniqueira na lagoa que o margeia.
Quero fazer Admissão com a Dona Maria do Max, comprar pão na Padaria da Nenzinha, feito pelo Miguel Padeiro.
Ir na casa do Mário do Nenem do Moleque, que não se chama Mário, e sim, Ademar, nome pelo qual ele não atende, e tomar o café da Maria.
Quero as chaves do João Carcereiro prá soltar minhas lembranças:
Cadê o Candinho, os Negos da Nazaré, o Luiz do Lelete, o Lázaro Guimarães, o Vandinho Gorila, o Vitinho, o Ratinho, o Preto, o Cambeba, o Ivan, o Bizôrro, o Mário Caetano, o Bigôrra, o Zé Baia, o Zé Cabelo, o Zé Piriquito, o Zé Paraná, e tantos outros Zés.
E onde estão aqueles apressadinhos que não esperaram por nós: Aprígio, Cochila, Lelete, Ivete, Lilico, Carlos do Prego e tantos outros, que nesse momento devem estar fazendo uma zona no céu, tomando cuba libre e cuspindo no chão.
Enfim, eu quero meus fantasmas de volta, mas Deus me livre das almas penadas e das assombrações descritas pelo meu pai."


Geraldo Eustáquio Magela é radialista e músico (cantor e instrumentista), membro da banda "Os Asteróides", da Cidade de Patos de Minas.


7 comentários:

Nelson Braz disse...

Foi muito bom ler seu texto o qual me fez relembrar um passado não muito distante. Muitas das suas lembranças também são as minhas. É muito gratificante saber que pessoas, como você, que foram embora não se esquecem de nossa Carmo. Venha a Carmo matar as saudades!!!!

abraços!

Nelson Braz (Nelson do Foto Arte)

IRAQUE disse...

Geraldo: tu certamente que não me conheces, mas faço parte da diáspora Carmense. Em 1965 saí do Carmo, para não mais voltar. Foi uma agradável surpresa ler a tua crônica. Ela retrata bem a época em que éramos jovens. A década de 1960 já vai se perdendo na poeira do tempo. Para as novas gerações, esse período estã tão distante quanto o planeta mais afastado da terra. No entanto, é a ele que me reporto. Por quê? Talvez pelo fato de termos sido jovens naquela oportunidade. Creio que a juventude é o momento mais belo da vida, cheio de sonhos, fantasias, planos para o futuro, e nós estamos muito mais propensos a novas possibilidades. Naquela época o Carmo era uma comunidade mais modorrenta, enfronhada na inocência de quem ainda não se apercebeu dos perigos interentes à experiência humana. Na nossa juventude, levávamos a vida no ritmo corriqueiro da simplicidade, presos que ainda estávamos ao cordão umbilical dos sentimentos mais primários de um coração jovem e sem a sofisticação artificial que caracteriza a falsidade do mundo em que agora vivemos. E como comemorávamos nossos rituais? No convívio com os colegas, participantes do mesmo palco existencial. Nos bailes do "clube de cima", ou na boate Montilla, nas sessões dos extintos Cine Carmo e Cine São Domingos, nas festas onde a banda Gorillas tocava suas estridentes guitarras. Era a fase em que Roberto Carlos era o "rei da Jovem Guarda", e quase todos os cantores tentavam imitá-lo. Ainda era o tempo das serenatas, quando apaixonados Romeus saiam tocando seus violões e cantando sob as janelas de adormecidas Julietas. Naqueles idos a televisão e o computador ainda não haviam aparecido para nos hipnotizar. A sociedade era mais tribal, no sentido mais positivo do termo. Ninguém era controlado pela internet. As pessoas eram dadas ao diálogo. Havia os locais de reuniões descontraídas, dois cinemas onde os jovens namorados se encontravam, e o que eles menos faziam era ver o filme, e depois íamos aos bailes, que aconteciam com frequência. De vez em quando acontecia algum quebra pau, mas quem se importava? Era tudo sonho, ilusão, juventude. O único obstáculo era nosso próprio limite humano, característico da espécie homo sapiens, independente da latitude ou longitude. Imagino que se eu for ao Carmo hoje não conhecerei quase ninguém, e a maioria das pessoas não saberá quem sou. Por lá continuam residindo alguns dos meus mais íntimos colegas daquela época: os Gorillas, Candinho, Tia Preta, Marco Aurélio Ramanery, Lacir Guimarães(primo dos Gorillas), Paulo Cícero(filho do Amador Carneiro), João Braz(hoje, prefeito do Carmo), Evandro Fontes, e outros. Alguns colegas de ginásio(GAP, lembras?) já foram para o outro lado da morte: Manoel Moreira Silva, Cícero(filho do Amador Carneiro), Zé Maria(primo dos Gorillas), Gaspar Araujo, Adélio Pimenta(antigo integrante dos Gorillas, um guitarrista de mão cheia, que chegou a tocar com o famoso Sérgio Reis). Ivan Moreira da Silva, Carmense que fez uma bela carreira numa instituição Federal em Brasília, escreveu dois livros nos quais ele fala sobre o Carmo. Ele teve a gentileza de me enviá-los. No primeiro livro, intitulado RETRATOS DE UMA VIDA VIVIDA, ele diz o seguinte: "Nossa terra é Minas pura. Sendo assim, ela é mesmo Carmo do Paranaíba de Deus, dos Santos, dos Vieiras, dos Caetanos, dos Moreiras e muito mais. De Aristides de Melo, do Joaquim Brinquim e da Geraldinha Casô. dos 'Calça Azul' do Bálsamo, do Colégio, do Campo do Meio e da Lagoa do São Bento. E do PSD desde o nascimento. E da UDN, que passa de pai para filho, de geração após geração, como se do nosso lado não fosse assim também!. Carmo das modas de viola e das folias de reis. E de gente simples. Espaço que dá doutores para universidades e Marias e Josés da escola da vida para a vida dos seus semelantes. Terra dos acordes das sanfonas e dos violões, nas mãos de sanfoneiros e de violeiros que ainda sabem festejar. Campo fértil de bons truqueiros, passarinheiros, boiadeiros, escritores, escritores e poetas por inteiro". Adorei ler a tua crônica. Ela me fez viajar na máquina do tempo, época em que éramos felizes e não sabíamos. Aceita um abraço do IRAQUE.

blogka disse...

É o "meu" Carmo. O "nosso" Carmo. Que jamais voltará, embora lá voltemos tanto!

Parabéns ao autor! Fiz uma maravilhosa viagem no tempo. Passado. Porque o futuro, cruz credo! Não vou viver pra ver. Graças a Deus!

Nada me escapou dessa belíssima narrativa.

Kátia Gomes (do Tiãozinho do Cartório - que se "foi" em out 2008)

Milton(TIBITA) disse...

Gostei demais de ler esta crônica maravilhosa e relembrar tudo nela descrito,como tambem das pessoas relacionadas.Os Gorillas foi,sem dúvida,um marco que nunca se apagará de nossas vidas,vividas cotidianamente com eles.

Milton(TIBITA)

xNaDo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
xNaDo disse...

Parabens pela postagem, a qual nos trouxe grandes recordacoes, mas seria injustica de minha parte nao lembrar do Dercil no violao, o Nandinho no saxofone, O Vico do taxi na acordeon, o Manezinho no bandero, e o senhor Clemente no bandolim, ambos fizeram muito nossa alegria com lindas musicas boemias e outros ritimos.
com todo carinho obrigado.

Marcelo Nunes Amaral disse...
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