domingo, 22 de julho de 2012

Uma Fábula ou um Conto?

 

Talvez a lembrança mais marcante tenha sido a despedida. 

Naquele dia de manhã, ele havia colocado no carro todos os apetrechos que tinham sido os seus pertences domésticos ao longo dos últimos dois anos, incluindo um colchão, objetos pessoais e alguns utensílios de cozinha, e dirigiu-se ao colégio onde ela dava aulas, no final da Asa Sul, para se despedir, antes de seguir viagem. 


Era final de novembro e durante todo aquele ano ele vinha tentando conseguir a sua transferência para Belo Horizonte, com o propósito de estabelecer uma relação minimamente pacífica com a mãe de suas filhas, acreditando que haveria alguma possibilidade de voltar a conviver e poder criar as filhas. 


Ele já vivia separado de fato da mãe daquelas crianças já havia cerca de três anos e por mais que soubesse que ela não inspirava confiança e nem credibilidade suficientes para se pensar numa reconciliação, ainda assim, talvez por insegurança e por falta de determinação e de decisão própria, ele insistia em voltar, acreditando que criaria uma situação que lhe permitisse conviver com as filhas. 


Porém, quando a sua transferência saiu, ele entrou em parafuso! Não sabia mais se queria voltar para Belo Horizonte. Aliás, na verdade, tinha certeza que não queria, porque estava apaixonado. 


Era uma paixão platônica, nunca revelada nem a ela mesma, pois a situação de indefinição dele em relação à família de Belo Horizonte e a sua falta de coragem, lhe tiravam a condição moral para admitir pra ela que estava apaixonado. 


E revelar isso sem estar absolutamente seguro de si e dos seus propósitos, além de criar expectativas que ele temia não conseguir sustentar mais tarde, ainda poderia mexer com os sentimentos dela. E ela definitivamente não merecia sofrer nenhuma decepção dessa natureza. 


Estacionado na frente do colégio, sentindo um vazio imenso no peito, ele ficou observando ela sair da portaria e se aproximar caminhando devagar, com aquela elegância peculiar, linda, segurando um caderno grande sobre o peito. 


Ela sentou no banco do passageiro e ele abatido, sem ânimo pra falar, acariciou o rosto dela enquanto olhava aqueles olhos azuis e aquela expressão meiga que tanto o cativavam.


Ela abaixou o olhar e com a voz embargada, quase sussurrando, como se não quisesse que ele ouvisse, exclamou: "Ah, não, é muito ruim ficar com saudade!" e abraçando-o, deixou escapar um soluço.


Ele tentando se conter e segurar as lágrimas, pegou o rosto dela entre as palmas das duas mãos e sentiu a alma estilhaçar ao ver lágrimas naqueles olhos lindos, agora avermelhados.


Sem dizer nada, com um nó na garganta, o peito apertado e a alma destroçada, ele apenas a abraçou novamente e sentiu inebriado o cheiro gostoso do cabelo dela.


Ali sentados no bancos do carro, se olharam e se abraçaram algumas vezes, falando frases curtas, sem muito assunto.


Até que ela tomou a iniciativa de se recompor e abreviar a despedida, pois ele não conseguia e não tinha disposição, não queria sair daquele abraço jamais. 


Ela desceu e ele a ficou observando caminhar lentamente na direção da portaria, de volta à sala de aula. 


Desolado, sentindo-se vazio, sem rumo e sem vontade nenhuma de sair dali, ele dirigiu lentamente rumo à saída da cidade e pegou a estrada para encarar os 700 km mais solitários da sua vida, tendo perdido a conta de quantas vezes chorou sozinho, recordando cada momento que passaram juntos.


...


Nos meses seguintes, ele voltou a Brasília algumas vezes para compromisso profissionais e sempre tratava de revelê-la. Mas embora continuassem as incertezas com relação às suas perspectivas de permanecer em Belo Horizonte e restabelecer a situação familiar, ele nunca teve coragem para assumir definitivamente o seu sentimento por ela, muito menos para voltar definitivamente para Brasília; ainda que profissionalmente fosse mais conveniente para ele e ainda que a saudade dela fosse imensa.


As viagens dele, quando ia a Brasília, eram eufóricas, cheias de expectativas e uma ansiedade imensa para revê-la. Por outro lado, as despedidas eram tristes e o retorno para Belo Horizonte era marcado pela melancolia e saudade.


Numa dessas despedidas, quando ele havia se hospedado com ela no seu apartamento no final da Asa Norte, ao sair do prédio, ainda de madrugada puxando uma mala de bordo enquanto atravessava a quadra para pegar um táxi na área comercial, ele parou por diversas vezes, cogitou voltar, dizer tudo para ela, mudar seus planos e contar que estava decidido a voltar a viver em Brasília ao lado dela. Mas limitou-se a abaixar a cabeça e seguir adiante devagar, com os olhos inundados e o peito apertado.


...


O COTILÉDONE:


Ela plantou em um vaso, na sala do seu apartamento uma semente de um tipo de feijão gigante que um aluno do Colégio havia lhe dado. Pouco antes dele se mudar para Belo Horizonte, a semente já havia brotado, sendo levantada pela raiz, que se desenrolava da terra. Ela, então, explicou que aquela semente semiaberta que brotava se levantando com as primeiras folhas, era chamado cotilédone. E, de brincadeira, ele passou a chamar aquele tipo de feijão de gigante de "feijão cotilédone". Ambos riram da brincadeira.


E quando ele já estava em Belo Horizonte, quando se falavam por telefone, para quebrar a nostalgia, ele perguntava pelos "feijões cotilédones". E numa das últimas vezes que ele esteve com ela naquele apartamento em Brasília, aquela planta havia crescido extraordinariamente, linda, com grandes folhas e cipós belíssimos dando voltas pelas paredes da sala.


...


A VIAGEM DO INTERIOR PARA BH


Por ocasião de uma viagem que ela fez para a sua cidade natal, coincidentemente ele também estava no interior de Minas, na sua própria cidade. Combinaram, então, que ele passaria na cidade dela para e viajariam juntos até Belo Horizonte.


Naquele dia, ele encheu-se de esperança e de coragem. Durante a viagem até a cidade dela, fez mil planos, imaginou e detalhou mentalmente como diria a ela que estava decidido a se transferir de volta para Brasília para viverem juntos. Estava definitivamente decidido.


Ao chegar na cidade dela, com o coração disparado diante daquela beleza, daqueles lindos olhos azuis, daquela voz doce e meiga, ele recusou-se até mesmo entrar para tomar um cafezinho e tratou logo de colocar a mala dela no carro e pegar a estrada rumo a Belo Horizonte, ansioso para falar dos seus sonhos e planos, para assumir de peito aberto que a amava e que a queria muito. 


Só que logo na saída ela confessou que estava "conhecendo alguém" em Brasília. Foi um balde de água fria, mas ele continuou tentando manifestar os seus sentimentos, porém de maneira muito sutil, em respeito ela e a uma situação que havia sido resultante da própria inércia dele.


...


O ÚLTIMO ENCONTRO:


Depois desse dia ele ainda pediu para vê-la na viagem seguinte que fez a Brasília. Ela, como sempre, muito elegante, gentil e respeitosa, como a postura e dignidade de sempre, concordou. 


Sugeriu que depois da sua reunião de trabalho, ele a encontrasse num restaurante, onde ela estaria com amigos. 


Ao entrar no restaurante ela estava à mesa com outras três ou quatro pessoas e ele não pode evitar a admiração e de encantar-se mais uma vez. Ela usava uma linda e discreta blusa social clássica bege com alguns destaques da cor vinho e o recebeu com gestos e expressão tranquilos, como sempre gentil, atenciosa e educada. Mas ele percebeu que alguma coisa não era mais como antes. Saiu dali desolado e percebendo que havia perdido a pessoa mais extraordinária que até então conhecera. Depois, ela confirmou por telefone que naquela mesa estava a pessoa que ela "estava conhecendo".


...


COMO SE CONHECERAM.


Nos dois primeiros anos que viveu em Brasília, ele voltava sempre que possível para passar os fins de semana com as filhas em Belo Horizonte, quase sempre de ônibus, saindo a sextas-feiras à noite e retornando na noite de domingo.


Num dessas viagens, enquanto comprava uma água numa lanchonete da rodoviária de Brasília, reparou quando ela se aproximou com uma pequena mochila nas costas, com aquele estilo elegante e uma beleza que a destacava naquele ambiente. Ela pediu algo no balcão e depois de algum comentário eventual entre os dois, começaram a conversar e descobriram que ambos pegariam o mesmo ônibus para Belo Horizonte. 


No embarque, ele trocou de assentos com outro passageiro e viajaram juntos. Aquela longa viagem noturna, a conversa, as tantas afinidades e a proximidade proporcionaram um encantamento dele por aquela inteligência e doçura. Naquele dia, combinaram viajar juntos de vota e a partir daí, combinaram outras vezes fazerem juntos essa viagem.

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