segunda-feira, 27 de julho de 2026

Um conto ou uma fábula?


Talvez a lembrança mais marcante tenha sido a despedida. 

Naquele dia bem cedo, ele havia espremido no carro todos os apetrechos que tinham sido os seus pertences ao longo dos últimos dois anos, incluindo um colchão, objetos pessoais e alguns utensílios de cozinha e dirigiu-se ao colégio onde ela dava aulas, no final da Asa Sul, para se despedir, antes de seguir viagem. 

Era final de novembro e durante todo aquele ano ele vinha tentando, por todos os meios possíveis, conseguir a sua transferência para Belo Horizonte, com o propósito de restaurar o seu antigo relacionamento, já tão depauperado há anos, acreditando que haveria alguma possibilidade de voltar a conviver e poder criar as filhas. Por mais que, no fundo, ele soubesse que a mãe dessas crianças não inspirava confiança e nem credibilidade suficientes para se pensar no futuro, ainda assim, por insegurança e por falta de determinação e de decisão própria, ele insistia em voltar, acreditando que fosse conseguir consertar a situação. 

Porém, quando a sua transferência saiu, ele entrou em parafuso! Não sabia mais se queria voltar para Belo Horizonte. Aliás, na verdade, tinha certeza que não queria, porque estava apaixonado. 

Era uma paixão platônica, nunca revelada nem a ela mesma, pois a situação de indefinição dele em relação à família de Belo Horizonte e a sua falta de coragem, lhe tiravam a condição moral para admitir pra ela que estava apaixonado. 

E revelar isso sem estar absolutamente seguro de si e dos seus propósitos, poderia mexer com os sentimentos dela, além de criar expectativas que ele temia não conseguir sustentar mais tarde. E ela definitivamente não merecia. 

Estacionado na frente do colégio, sentindo um vazio imenso no peito, ele ficou observando ela sair da portaria e se aproximar com aquele cabelo bonito, caminhando devagar, segurando um caderno grande sobre o peito. 

Ela sentou no banco do passageiro e ele abatido, sem ânimo pra falar, acariciou o rosto dela enquanto olhava aqueles olhos azuis e aquela expressão meiga que tanto o cativava.

Ela abaixou o olhar e com a voz embargada, quase sussurrando, como se não quisesse que ele ouvisse, exclamou: "Ah, não, é muito ruim ficar com saudade!" e abraçando-o, deixou escapar um soluço de choro.

Ele tentou se conter e segurar as lágrimas, pegou o rosto dela entre as palmas das duas mãos e sentiu a alma estilhaçar, vendo lágrimas naqueles olhos lindos, agora avermelhados.

Sem dizer nada, com um nó na garganta, o peito apertado e a alma destroçada, ele apenas a abraçou novamente e sentiu inebriado o cheiro daquele cabelo lindo.

Ela tomou a iniciativa de se recompor e abreviar a despedida, pois ele não conseguia e não tinha disposição, não queria sair daquele abraço jamais. 

Se despediram e ele ficou observando ela caminhar lentamente na direção da portaria, retornando à sala de aula. 

Desolado, sentindo-se vazio, sem rumo e sem vontade nenhuma de sair dali, ele dirigiu lentamente rumo à saída da cidade, pegou a estrada para encarar os 700 km mais solitários da sua vida e perdeu as contas de quantas vezes chorou sozinho, recordando cada momento que passaram juntos.

...

Nos meses seguintes, ele voltou a Brasília algumas vezes para compromisso profissionais e sempre tratava de revelê-la. Mas embora continuassem as incertezas com relação às suas perspectivas de permanecer em Belo Horizonte e restabelecer a situação familiar, ele nunca teve coragem para assumir definitivamente o seu sentimento por ela, muito menos para voltar para Brasília; ainda que profissionalmente seria mais conveniente para ele e ainda que a saudade dela fosse imensa.

As viagens dele quando ia a Brasília eram eufóricas, cheias de expectativas e uma ansiedade imensa para revê-la. Por outro lado, as despedidas eram tristes e o retorno para Belo Horizonte era marcado pela melancolia.

Numa dessas despedidas, quando ele havia se hospedado com ela no seu apartamento no final da Asa Norte, ao sair do prédio, ainda de madrugada puxando uma malinha de bordo enquanto atravessava a quadra para pegar um táxi na área comercial, ele parou por diversas vezes, cogitou voltar, dizer tudo para ela, mudar seus planos e voltar a viver em Brasília ao lado dela. Mas limitou-se a abaixar a cabeça e seguir adiante devagar, com os olhos inundados e o peito apertado.

...

Ela plantou em um vaso, na sala do seu apartamento uma semente de um tipo de feijão gigante que um aluno do Colégio havia lhe dado. Pouco antes dele viajar para Belo Horizonte,  a semente já havia brotado, sendo levantadola pela raiz, que se desenrolava da terra. Ela, então, explicou que aquela semente semiaberta que brotava se levantando com as primeiras folhas, era chamado cotilédone. E, de brincadeira, ele passou a chamar aquele tipo de feijão de gigante de "feijão cotilédone". Ambos riram da brincadeira e depois disso, muitas vezes, quando se falava por telefone, para quebrar a nostalgia, ele perguntava pelos "feijões cotilédones". E numa das últimas vezes que ele esteve com ela naquele apartamento em Brasília, aquela planta havia crescido extraordinariamente, linda, com folhas e cipós belíssimos dando voltas pelas paredes da sala.

...

Talvez o último encontro deles tenha sido quando ele estava na sua cidade natal, no interior de Minas, e soube que ela estava também no interior de Minas. Combinaram, então, que ele passaria na cidade dela para pegá-la e viajariam juntos até Belo Horizonte.


Naquele dia, ele encheu-se de esperança e de coragem. Na viagem até a cidade dela, fez mil planos, imaginou e detalhou mentalmente a proposta que faria a ela para viverem juntos. Estava definitivamente decidido a voltar para Brasília.


Ao chegar na cidade natal dela, com o coração disparado diante daquela beleza, daqueles lindos olhos azuis, daquela expressão meiga e o timbre de voz mais lindo do mundo, ele recusou-se até mesmo entrar para tomar um cafezinho e tratou logo de colocar a mala dela no carro e pegar a estrada uma Belo Horizonte, ansioso para falar dos sonhos que vinha cultivando, para assumir de peito aberto aqui a amava e que a queria muito. 


Só que logo na saída ela confessou que estava "conhecendo alguém". Foi um balde de água fria mas ele continuou tentando manifestar os seus sentimentos, porém de maneira muito sutil, em respeito ela e a uma situação que havia sido resultante da própria inércia dele.

...

Depois desse dia ele ainda pediu para vê-la na viagem seguinte que fez a Brasília. Ela, como sempre, muito elegantemente, com aquela postura gentil, respeitosa e ostentando a dignidade de uma princesa, concordou. 

Sugeriu que depois da sua reunião de trabalho, ele a encontrasse num restaurante, onde ela estaria com amigos. 


Ao entrar no restaurante ela estava sentada com outras três ou quatro pessoas e ele não pode evitar a admiração e de encantar-se mais uma vez pela beleza. Ela usava uma linda e discreta blusa bege (talvez branca) com alguns destaques da cor vinho e o recebeu com gestos e expressão tranquilos, sem manifestar alteração no seu jeito gentil, na sua fineza, na educação e postura primorosa e na atenção dedicada, mas ele percebeu que alguma coisa não era mais como antes. Saiu dali desolado e percebendo que havia perdido a pessoa mais extraordinária que até então conhecera. Naquela mesa estava a pessoa que ela conhecia.

...

COMO SE CONHECERAM.

Nos dois anos que antecederam esse dia fatídico, ele viveu em Brasília, voltando sempre que possível para passar os fins de semana com as filhas em Belo Horizonte, quase sempre de ônibus, em viagens extenuantes, saindo a sextas-feiras à noite e retornando na noite de domingo.


Num desses embarques, enquanto comprava uma água numa lanchonete da rodoviária de Brasília, reparou quando ela se aproximou com uma mochila nas costas, com aquele estilo elegante e uma beleza que a destacava naquele ambiente. Ela pediu algo e depois algum comentário entre os dois, descobriram que ambos pegariam o mesmo ônibus para Belo Horizonte e a conversa animada propiciou uma troca de lugares e sentaram-se junto nessa viagem.


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